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JOSÉ SARAMAGO

 

[N. Azinhaga,(Portugal) 16-11-1922 - m. Lanzarote(Espanha), 18-6-2010]

 

 

José de Sousa Saramago nasceu "numa família de camponeses sem terra," como ele próprio escreveu, em Azinhaga (Ribatejo, Golegã, Portugal), a 16 de Novembro de 1922. Saramago foi a alcunha que o funcionário do Registo Civil, por iniciativa própria, acrescentou, uma vez que era assim que era conhecida na aldeia a família do pai. O nome de Saramago corresponde a uma planta espontânea, que servia de alimento aos pobres.

Em 1924, José mudou-se com a família para Lisboa. O pai decidira abandonar o trabalho do campo e exercer a profissão de polícia na capital. Poucos meses depois morria o seu irmão Francisco, com quatro anos de idade. Só por volta dos catorze anos é que José Saramago e a família foram habitar uma casa (mesmo assim, muito pequena), porque, até essa altura, viviam em quartos alugados e águas-furtadas, em várias ruas de Lisboa: Quinta do Perna-de-Pau, Rua E (hoje Rua Luís Monteiro), Rua Carrilho Videira, Rua dos Cavaleiros, Rua Padre Sena Freitas. Até à maioridade o escritor viveu, durante longos períodos, na aldeia, com os avós maternos.

Fez a instrução básica nas escolas primárias da Rua Martens Ferrão e do Largo do Leão. Embora se tivesse matriculado no Liceu Gil Vicente, onde frequentou os cursos liceal e técnico, a falta de recursos económicos da família obrigou-o a transferir-se para a Escola Industrial de Afonso Domingues, onde estudou, durante cinco anos, o ofício de serralheiro mecânico. Os tempos de escassez económica que viveu moldar-lhe-iam o carácter forte e indomável, consciente das injustiças deste mundo e da necessidade imperiosa de colocar todo o seu engenho ao serviço de ideais de justiça e liberdade. Nunca renegaria essa pobreza original. Pelo contrário, no seu discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura, começaria por recordar publicamente os seus avós maternos, analfabetos e simples criadores de porcos, o tempo em que andava descalço (até aos catorze anos) a ajudar o avô Jerónimo e em que com ele aprendeu a moldar matéria dos sonhos. Dele disse: “o homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever” e “era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras”. A mãe, Maria da Piedade, também analfabeta, ofereceu-lhe o primeiro livro, A Toutinegra do Moinho, de Émile de Richebourg, quando tinha 14 anos.

Terminado o curso, conseguiu o seu primeiro emprego como serralheiro mecânico nas oficinas dos Hospitais Civis de Lisboa. Cedo adquiriu hábitos de rígido cumprimento do dever, de dedicação ao trabalho e de pontualidade. Nunca teve ambições na vida, sabia que era preciso viver cada dia com trabalho árduo e que o que tivesse de chegar chegaria no seu devido tempo. À noite frequentava a biblioteca municipal do Palácio das Galveias, “lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem ninguém que me aconselhasse, com o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre”, como ele próprio diria. Foi assim, “guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender” que desenvolveu o gosto pela leitura e a preferência especial por Gogol, Cervantes, Montaigne, Raul Brandão, Padre António Vieira e kafka.

Quando, em 1944, casou com a pintora Ilda Reis (que viria a falecer em 1998), já tinha mudado de actividade, e passara a trabalhar como empregado administrativo, primeiro nos Hospitais Civis de Lisboa e, depois, na Caixa de Abono de Família do Pessoal de Indústria de Cerâmica, de onde foi afastado, em 1949, por razões políticas, quando apoiou o candidato da oposição, General Norton de Matos, nas eleições para a Presidência da República.

Foi em 1947, ano do nascimento da sua única filha, Violante, que publicou o seu primeiro romance, Terra do Pecado, inicialmente intitulado A Viúva.

Graças à intervenção do seu antigo professor Jorge O´Neil começou a trabalhar na Caixa de Previdência do Pessoal da Companhia Previdente, fazendo cálculos de subsídios e de pensões. Entretanto, escrevia poemas e contos, alguns dos quais publicados em revistas e jornais e, em 1953, concluia o romance inédito Clarabóia, que o amigo e pintor Figueiredo Sobral enviou para a Empresa Nacional de Publicidade e de que esta só deu notícia em 1990. O próprio Saramago desvalorizava o caso dizendo “sempre tive consciência que não se perdeu grande coisa em não ter sido publicado”. Durante os dezanove anos seguintes não escreveu nada. Foram quase duas décadas de silêncio, de vazio na sua biografia literária. Desassombradamente diria: “Simplesmente achava que não tinha nada para dizer”

Começou a trabalhar na editora Estúdios Cor, como responsável pela produção, o que lhe permitiu conhecer e criar relações de amizade com alguns dos mais importantes escritores portugueses de então. Para melhorar o orçamento familiar, mas também por gosto, começou, a partir de 1955, e até 1981, a dedicar uma parte do tempo livre à tradução de autores como Colette, Pär Lagerkvist, Jean Cassou, Maupassant, André Bonnard, Tolstoi, Beaudelaire, Étienne Balibar, Nicos Poulantzas, Henri Focillon, Jacques Roumain, Hegel, Raymond Bayer.

Em 1966 publicou o seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis. Paralelamente, entre Maio de 1967 e Novembro de 1968, colaborou como crítico literário na revista Seara Nova, analisando vinte e três livros de ficção, entre os quais títulos de Jorge de Sena, Agustina Bessa-Luís, Júlio Moreira, Alice Sampaio, Augusto Abelaira, Urbano Tavares Rodrigues, José Cardoso Pires, Rentes Carvalho, Nelson de Matos, Manuel Campos Pereira. A Agustina, definiu-a, na Seara Nova, como uma escritora «genial» - o que demonstra a sua isenção ( raríssima, na época) e o seu apurado critério de qualidade literária. Publicou crónicas no jornal A Capital, que seriam mais tarde reunidas no livro Deste Mundo e do Outro.

Em 1970 divorciou-se de Ilda Reis e iniciou uma relação, que duraria dezasseis anos, com a escritora Isabel da Nóbrega. Publicou o livro de poemas Provavelmente Alegria. Saiu da editora Estúdios Cor e durante dois anos trabalhou como editorialista e coordenador de um suplemento cultural no Diário de Lisboa. Prosseguiu também a colaboração no Jornal do Fundão. Em 1973, publica O Embargo e o segundo volume de crónicas jornalísticas publicadas no Jornal do Fundão e em A Capital, sob o título A Bagagem do Viajante.

Quando a Revolução de Abril chegou, já o antigo operário dirigia o suplemento literário do Diário de Lisboa e colaborava com a revista “Arquitectura”. Transformara-se em operário das palavras. Quase meio século de ditadura e opressão havia chegado ao fim e José Saramago foi nomeado director-adjunto do Diário de Notícias a 9 de Abril de 1975, durante o período dos governos chefiados por Vasco Gonçalves. Anteriormente, coordenara uma equipa do Fundo de Apoio aos Organismo Juvenis (FAOJ), dependente do Ministério da Educação, colaborara como assessor do Ministério da Comunicação Social e editara o seu primeiro volume de crónicas políticas, As Opiniões que o DL Teve.

Viviam-se tempos turbulentos e extremamente confusos nesse chamado verão quente de 1975. O país encontrava-se, segundo opinião de muitos, à beira de uma guerra civil. No Diário de Notícias sentia-se um clima de braço de ferro entre os considerados “radicais”, envolvidos com o processo revolucionário, de acordo com a linha política do PCP, de que o escritor era militante desde 1969, e os mais “moderados”. A linha editorial do jornal foi posta em causa por um grupo de trinta jornalistas, que defendia a sua revisão num abaixo-assinado entregue à direcção, à qual exigia a respectiva publicação no dia seguinte no próprio matutino. A verdade é que apareceu, um dia depois, publicado no Expresso, tendo sido igualmente enviado para a BBC. Como vem referido no próprio Diário de Notícias (edição de 19 de Junho de 2010), “Saramago diz que para decidir tinha de convocar o Conselho Geral de Trabalhadores e nessa mesma noite foi decidida, em plenário, a suspensão dos 24 jornalistas, após uma sua intervenção “eloquente”. Mas antes de Saramago, já o DN tinha sido alvo de outro “saneamento” pela mão da direcção anterior, afecta ao PS. No governo seguinte, o primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo estrangula financeiramente o jornal. Em 25 de Novembro, o jornal foi suspenso e Saramago afastado, “sem sequer receber apoio político do seu partido.”

Mais uma vez desempregado, com todas as portas a fecharem-se-lhe, confrontado com a impossibilidade de encontrar emprego no contexto político que então se vivia, decidiu dedicar-se exclusivamente à escrita e à tradução, vertendo para português cerca de vinte e sete obras, muitas delas de carácter político. Eram escassos os proventos que destas actividades resultavam, mas o escritor não desistia nem de escrever, nem de prosseguir a luta pelos seus ideais. Fez parte do Movimento Unitário de Trabalhadores Intelectuais para a Defesa da Revolução (MUTI) e publicou, até ao final de 1976, o livro O Ano de 1993, Apontamentos, uma recompilação das crónicas escritas no Diário de Notícias e o romance Manual de Pintura e Caligrafia. No início de 1976 tomou a resolução de se instalar por uns tempos no Alentejo, na povoação rural de Lavre, onde viveu um período muito rico em observação e recolha de informações, que seriam fundamentais para a escrita do seu aclamado romance Levantado do Chão, com o qual ganhou o Prémio Cidade de Lisboa e que marcou o início do seu estilo ímpar na literatura. Nos dois anos anteriores tinha publicado a peça de teatro A Noite, que mereceu o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, e o conto O Ouvido, que integrou a obra colectiva de vários autores, Poética dos Cinco Sentidos.

Na década de 80 surgiu a consagração internacional. Continuou a traduzir: cerca de dez títulos de vários autores, Bautista, Honoré, Jivkov, Duby, Hikmet. Publicou a peça de teatro Que farei com Este Livro?;Viagem a Portugal; Memorial do Convento (1982), pelo qual lhe foi atribuído o Prémio Pen Club 1983 e o Prémio Literário Município de Lisboa; O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), sendo-lhe atribuído novamente o Prémio Pen Club 1985, o Prémio da Crítica 1985, pela Associação Portuguesa de Críticos, o Prémio Dom Dinis (Fundação Casa de Mateus) e o Prémio Grinzane-Cavour (Alba, Itália) 1987. Em 1986 terminou a sua relação com a escritora Isabel da Nóbrega. Publicou o romance A Jangada de Pedra (1986); a peça de teatro A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987).

Conhecera entretanto a jornalista e tradutora espanhola Pilar del Rio – que, maravilhada com O Ano da Morte de Ricardo Reis, decidira vir conhecer Lisboa e o autor - com quem se casa em 1988. Sobre ela escreveu: “Se tivesse morrido aos 63 anos, antes de a conhecer, morreria muito mais velho do que quando serei quando chegar a minha hora”. Renovaria os seus votos com Pilar, em Castril, Espanha, a 16 de Julho de 2007, ao som de Paco Ibañez, que tocou na praça da aldeia. Em 1989 publicou História do Cerco de Lisboa e, em 1990, estreava no Teatro Alla Scalla de Milão a ópera Blimunda, com libreto do músico italiano Azio Corghi baseado no romance Memorial do Convento.

Pertenceu à primeira Direcção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, de 1985 a 1994, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores. Em 1989 foi ainda, durante um curto período, Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, aquando da histórica coligação entre socialistas e comunistas, que tinha como Presidente da Câmara Jorge Sampaio.

A década de 90 marcará o seu “exílio” provocado pelo escandaloso acto censório do governo chefiado por Cavaco Silva, pela mão do então subsecretário de Estado, Sousa Lara, que vetou a candidatura da sua obra O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) ao Prémio Literário Europeu, alegando que o livro era ofensivo para os católicos. Profundamente indignado e desiludido, José Saramago foi viver com Pilar para a ilha vulcânica de Lanzarote (Canárias), em Espanha. Aí, nesse pedaço de terra silenciosa e banhada de sol, o casal construiu a sua casa. O nome “A Casa” ficou gravado em azulejos no muro branco, explicando o escritor que resolveu “baptizá-la assim, se calhar pela minha necessidade de espetar uma pequena bandeira portuguesa. Foi a afirmação da minha origem” (DNA, 1999).

Portugal seria, apesar de todas as controvérsias, a sua pátria até ao fim. Não hesitava em o reafirmar (após a atribuição do Nobel, ao DN): “Eu sou de onde sou. Sou de onde nasci, sou da língua que falo, sou da história que o meu país tem, sou das qualidades e dos defeitos que nós temos, sou dos sonhos e ilusões que são nossos ou foram ou vão ser. É daí que eu sou, é aí que eu pertenço. O que há na relação de Espanha comigo é uma grande generosidade. Eles receberam-me como seu fosse um deles. A pátria é em Portugal, o lugar da raiz e da consciência. Mas eu tenho a sorte de ter um país aumentado. Que se prolongou até esta ilha.”

O Evangelho Segundo Jesus Cristo seria galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e com vários e importantes prémios italianos. Nomeado Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Turim e Sevilha, foi agraciado pelo governo francês com o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras. Em 1993 publicou a sua quarta peça de teatro, In Nomine Dei, distinguida com o Grande Prémio de Teatro da Associação Portuguesa de Escritores e iniciou a escrita de um diário Cadernos de Lanzarote, de que se publicaram cinco volumes. Tornou-se membro do Parlamento Internacional de Escritores, sediado em Estrasburgo. O reconhecimento internacional é bem patente nos prémios e distinções que diversos países lhe atribuem, nas adaptações das suas obras e traduções para mais de quatro dezenas de idiomas.

Em 1995 publicou Ensaio sobre a Cegueira e o segundo volume de Cadernos de Lanzarote. Nesse mesmo ano foi-lhe atribuído o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa, e o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores. Estreou A Morte de Lázaro, com música de Azio Corghi e libreto baseado nas obras In Nomine Dei, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Memorial do Convento. Nos anos de 1996 a 1998 foram publicados três volumes de Cadernos de Lanzarote, o romance Todos os Nomes e o Conto da Ilha Desconhecida.

A consagração máxima chega em 1998, quando a Academia Sueca lhe atribui o Prémio Nobel da Literatura «...pela sua capacidade de tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia». No dia 7 de Dezembro em Estocolmo, na tradicional palestra proferida pelos laureados, o Escritor José Saramago não se esqueceu de recordar as suas raízes, de lembrar os direitos humanos e as injustiças. Disse então: “Em certo sentido poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a minha vida não tivesse logrado ser mais do que um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras que de promessa não conseguiram passar, a existência de alguém que talvez pudesse ter sido e afinal não tinha chegado a ser. Agora sou capaz de ver com clareza quem foram os meus mestres de vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de viver, essas dezenas de personagens de romance e de teatro que neste momento vejo desfilar diante dos meus olhos, esses homens e essas mulheres feitos de papel e de tinta, essa gente que eu acreditava ir guiando de acordo com as minhas conveniências de narrador e obedecendo à minha vontade de autor, como títeres articulados cujas acções não pudessem ter mais efeito em mim que o peso suportado e a tensão dos fios com que os movia.” Concluiu afirmando: “Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiverem. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo.”

Como o próprio escritor esclarece na sua autobiografia: “Em consequência da atribuição do Prémio Nobel a minha actividade pública viu-se incrementada. Viajei pelos cinco continentes, oferecendo conferências, recebendo graus académicos, participando em reuniões e congressos, tanto de carácter literário como social e político, mas, sobretudo, participei em acções reivindicativas da dignificação dos seres humanos e do cumprimento da Declaração dos Direitos Humanos pela consecução de uma sociedade mais justa, onde a pessoa seja prioridade absoluta, e não o comércio ou as lutas por um poder hegemónico, sempre destrutivas. Creio ter trabalhado bastante durante estes últimos anos. Desde 1998, publiquei Folhas Políticas (1976-1998) (1999), A Caverna (2000), A Maior Flor do Mundo (2001), O Homem Duplicado (2002), Ensaio sobre a Lucidez (2004), Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido (2005), As Intermitências da Morte (2005) e As Pequenas Memórias (2006).” O lançamento deste último aconteceu na Azinhaga.

A reconciliação entre Saramago e o seu país deu-se através de uma iniciativa diplomática do Primeiro-ministro Durão Barroso, em 2004, que condenou o processo censório do governo de que ele próprio tinha sido Ministro dos Negócios Estrangeiros. O escritor considerou o conflito sanado e Durão Barroso anunciou a criação da Cátedra José Saramago na Universidade Autónoma do México, com o objectivo de promover a divulgação da língua e cultura portuguesas.

No Verão de 2006 foi inaugurada a biblioteca da sua casa em Tias, Lanzarote. No Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, teve lugar uma iniciativa inédita: a apresentação conjunta das edições portuguesa, brasileira, catalã, italiana e espanhola (de Espanha e da América falante do castelhano), com leituras de excertos da obra em todas estas línguas, num acto de homenagem à diversidade cultural. A edição foi impressa em papel «amigo das florestas», por acordo entre José Saramago, os editores e a Greenpeace. A música de Bach foi o fundo musical do evento.

Os eventos sucedem-se em todo o mundo: nos teatros, nos cinemas, na ópera, em concertos, em simples recitais escolares. Em 2007 Luis Pastor apresenta o CD Nesta Esquina do Tempo, em que são musicados poemas de Saramago. A 7 de Março é levado à cena, em Nova Iorque, o seu romance Ensaio sobre a Cegueira, pela mão do director artístico da Godlight Theater Company. A 20 apresenta-se na Corunha La flor más grande del mundo, uma curta-metragem de animação baseada no conto de Saramago A Maior Flor do Mundo, realizada por Juan Pablo Etcheverry e com música de Emilio Aragón, que ganhará vários prémios de melhor filme de animação, nos anos seguintes. Em Helsínquia, estreia-se Baltasar e Blimunda, espectáculo musical realizado sobre textos do Memorial do Convento e música de Domenico Scarlatti. Na obra intervêm, além de uma voz recitante, a cravista Elina Mustonen, a soprano Sirkka Lampimäki e a bailarina Lili Dahlberg. O espectáculo estreou em Madrid a 16 de Novembro, para celebrar o 85º aniversário do escritor; em Lisboa, a 18 de Novembro e em Lanzarote, a 13 de Janeiro de 2008. Em Abril termina o texto As Sete Palavras do Homem [Las siete palabras del hombre], uma encomenda de Jordi Savall para acompanhar a sua gravação da versão orquestral de As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz de Joseph Haydn, à frente da orquestra Le Concert des Nations. O texto de Saramago reproduz-se no folheto que acompanha o CD.

Em Junho cria a Fundação José Saramago, que assume entre os seus objectivos fundamentais não apenas o estudo e divulgação da sua obra, mas também a defesa e a divulgação da literatura contemporânea. Em declaração de princípios assinada a 29 de Junho de 2007, o escritor declara como sua vontade:

 «a ) Que a Fundação José Saramago assuma, nas suas actividades, como norma de conduta, tanto na letra como no espírito, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em Nova Iorque no dia 10 de Dezembro de 1948; b) Que todas as acções da Fundação José Saramago sejam orientadas à luz deste documento que, embora longe da perfeição, é, ainda assim, para quem se decidir a aplicá-lo nas diversas práticas e necessidades da vida, como uma bússola, a qual, mesmo não sabendo traçar o caminho, sempre aponta o Norte; c) Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo.» E conclui: «Bem sei que, por si só, a Fundação José Saramago não poderá resolver nenhum destes problemas, mas deverá trabalhar como se para isso tivesse nascido. Como se vê, não vos peço muito, peço-vos tudo.»

A Fundação é reconhecida oficialmente pelo governo português a 28 de Fevereiro de 2008, com publicação em Diário da República desse mesmo dia e, a 16 de Julho, a Câmara Municipal de Lisboa aprova a cedência da Casa dos Bicos à Fundação José Saramago por um período de 10 anos para que ali se instale a sua sede. No dia seguinte é assinado o protocolo de cedência entre a Câmara e a Fundação.

A 18 de Dezembro dá entrada num hospital de Lanzarote, acometido por uma pneumonia que evoluirá, com complicações, que lhe colocam a vida em risco. Estará hospitalizado um mês e três dias, mas logo no dia seguinte ao seu regresso a casa, em Lanzarote, retoma o romance que a doença havia interrompido, A Viagem do Elefante.

No ano de 2008 sucedem-se, em Portugal, as homenagens a José Saramago. Com a presença do primeiro-ministro José Sócrates é inaugurada a Exposição José Saramago. A Consistência dos Sonhos, organizada, na Galeria de Pintura do Rei D. Luís, no Palácio Nacional da Ajuda, pelo Ministério da Cultura. Em Maio inaugura-se uma extensão local da Fundação José Saramago em Azinhaga e a sua aldeia natal gemina-se com os municípios de Tías (Lanzarote) e Castril (Granada), reunindo-se assim, simbolicamente, três municípios vinculados à história sentimental de Saramago. A 14 de Maio, o Festival de Cinema de Cannes abre com o filme Blindness, uma adaptação do romance Ensaio sobre a Cegueira, transposta para o cinema pelo realizador brasileiro Fernando Meirelles, com os actores Mark Ruffalo e Julianne Moore.

A 22 de Agosto termina na sua casa em Lanzarote A Viagem do Elefante, cujas edições portuguesa, brasileira, espanhola e catalã saem em simultâneo. Entretanto tinha iniciado O Caderno de Saramago no blogue da Fundação José Saramago, onde publica regularmente os seus textos, à razão de cinco artigos por semana.

2009 será ainda um ano de intensa actividade, apesar da sua frágil saúde. A 23 de Abril, coincidindo com o Dia Mundial do Livro, a Fundação José Saramago e a Editorial Caminho publicam conjuntamente O Caderno, uma compilação dos textos diários que Saramago, desde Setembro de 2008 até meados de Março de 2009, foi publicando no seu blogue.

Em Itália, a Editora Einaudi, que habitualmente edita a obra de Saramago, recusa a publicação de O Caderno, pelas referências críticas dedicadas ao primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, proprietário da empresa editora. Saramago comentou à imprensa: «A verdade é que a situação que foi criada poderia definir-se como pitoresca, não fosse o facto de um político acumular tanto poder que faz temer a qualidade da democracia.» E acrescentou: «Deve ser duro viver quando o poder político e o empresarial se reúnem. Não invejo a sorte dos italianos, mas no final depende da vontade dos eleitores manter este estado de coisas ou mudá-lo». Em declarações ao diário espanhol El País, precisou: «O que digo dele é mais ou menos o que todo o mundo pensa, à excepção dos seus votantes. Dizemos que a democracia é o melhor dos sistemas, e é certo. Mas a sua fragilidade é enorme. Quando aparece um senhor assim, que utiliza os piores métodos e consegue milhões de votos, o que acho estranho não é que se levantem vozes indignadas que protestem, mas que não se produza um movimento social de recusa pelo simples facto de que arruína o prestígio do seu país.»

No dia 30 de Outubro é lançado o seu último romance, Caim, na Fundação Caixa Geral de Depósitos – Culturgest, em Lisboa, com a presença do autor.

Em Dezembro, Saramago ainda arranja forças para visitar Aminatu Haidar (defensora incondicional dos Direitos Humanos e destacada activista pela independência do Sahara Ocidental), no aeroporto de Guacimeta em Lanzarote onde esta permanecia, em greve de fome, depois de proibida a sua entrada em Marrocos.

Em Janeiro de 2010, na sequência do sismo que abalou o Haiti, dá-se início a uma campanha de solidariedade para com o povo haitiano dando vida às palavras de José Saramago, a propósito da tragédia, “Porque todos temos uma obrigação”. Esta campanha traduziu-se no lançamento de uma edição especial do livro A Jangada de Pedra, cujas vendas reverteram integralmente a favor das vítimas do sismo, através Fundo de Emergência da Cruz Vermelha, e foi promovida pela Fundação José Saramago, Grupo Leya e Editorial Caminho.

Em Fevereiro de 2010 é lançado O Caderno 2 ,com prefácio de Umberto Eco. Em Março é exibido o filme Embargo, de António Ferreira, adaptado do conto homónimo de José Saramago, incluído na obra Objecto Quase. O filme fez parte da selecção oficial do Festival Fanstaporto 2010.

Saramago tornou-se um escritor e um cidadão à escala global. As distinções que recebeu são disso exemplo.

Prémios

Suécia

Prémio Nobel de Literatura

Portugal

Prémio Luís de Camões
Prémio da Associação de Críticos Portugueses
Prémio Cidade de Lisboa
Prémio Literário Município de Lisboa
Prémio PEN Club Português (por duas vezes)
Prémio da Crítica
Prémio Dom Dinis, da Fundação Casa de Mateus
Grande Prémio de Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores
Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores
Grande Prémio de Teatro, da Associação Portuguesa de Escritores
Prémio de Consagração de Carreira, da Sociedade Portuguesa de Autores

Itália

Prémio Grinzane-Cavour de Romance
Prémio Internacional Ennio Flaiano
Prémio Brancatti
Prémio Literário Internacional Mondello
Prémio Scanno - Universidade Grabiele d'Annunzio
Prémio Penne-Mosca
Prémio Nacional de Narrativa Città di Penne

Inglaterra

Prémio "The Independent" para Ficção Estrangeira

Espanha

Prémio Rosalía de Castro
Prémio Europa de Comunicação Jordi Xifra Heras
Prémio Canárias Internacional 2001

Doutoramentos «Honoris Causa»

1991 - Universidade de Turim (Itália)
1991 - Universidade de Sevilha (Espanha)
1995 - Universidade de Manchester (Inglaterra)
1997 - Universidade de Castilla-la-Mancha (Espanha)
1999 - Universidade de Évora (Portugal)
1999 - Universidade de Nottingham (Inglaterra)
1999 - Universidade de Porto Alegre (Brasil)
1999 - Universidade de Rio Grande do Sul (Brasil)
1999 - Universidade de Minas Gerais (Brasil)
1999 - Universidade Politécnica de Valência (Espanha)
1999 - Universidade Fluminense (Brasil)
1999 - Universidade de Santa Catarina (Brasil)
1999 - Universidade do Rio de Janeiro (Brasil)
1999 - Universidade Michel de Montaigne (França)
1999 - Universidade de Massachusetts (EUA)
1999 - Universidade de Las Palmas, Grã Canária (Espanha)
1999 - Universidade Pontifícia de Valência (Espanha)
2000 - Universidade de Salamanca (Espanha)
2000 - Universidade de Santiago do Chile (Chile)
2000 - Universidade do Uruguai (Uruguai)
2001 - Universidade de Roma (Itália)
2001 - Universidade Carlos III (Espanha)
2001 - Universidade de Granada (Espanha)
2002 - Universidade Stranieri de Siena (Itália)
2003 - Universidade Autónoma do México (México)
2003 - Universidade de Tabasco (México)
2003 - Universidade de Buenos Aires (Argentina)
2004 - Universidade Charles de Gaulle (França)
2004 - Universidade de Alicante (Espanha)
2004 - Universidade de Coimbra (Portugal)
2004 - Universidade de Brasília (Brasil)
2005 - Universidade de Alberta (Canadá)
2005 - Universidade de El Salvador (El Salvador)
2005 - Universidade da Costa Rica (Costa Rica)
2005 - Universidade de Estocolmo (Suécia)
2006 - Universidade de Dublin (Irlanda)
2007 - Universidade Autónoma de Madrid (Espanha)

Outras Distinções

Portugal

 

Comendador da Ordem Militar de Santiago de Espada
Grande Colar da Ordem Militar de Santiago de Espada
Cidadão de Honra, Câmara Municipal do Porto Medalha de Ouro, Universidade de Coimbra
Sócio Honorário Desportivo do Sport Lisboa e Benfica Chaves de Ouro da Cidade de Pinhel
Sócio Honorário da Academia de Ciências de Lisboa
Professor Coordenador Honorário do Instituto Politécnico de Leiria
Membro Honorário do Centro Nacional de Cultura
Medalha de Ouro da Cidade de Mafra

Brasil

Sócio Correspondente da Academia Brasileira de Letras

França

Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras
Legião de Honra
Membro do Conselho do Futuro, Unesco

Espanha

Grã Cruz da Ordem «Ilhas Canárias»
Diploma de Honra, A. C. Casa de América das Canárias
Medalha de Honra, U. I. Menéndez Pelayo
Medalha de Ouro, Governo das Canárias
Académico Honorário, Academia Canária de La Laguna
Filho Adoptivo de Granada
Membro do Patronato de Honra da Fundação César Manrique
Membro da Academia Europeia de Yuste
Beca de Honra da Residência de Estudantes da Universidade Carlos III
Sócio Honorário da A. P. de Sevilha de Amigos de Apoio ao Povo Saauri
Presidente Honorário de Son Latinos
Presidente Honorário da Fundação Alonso Quijano
Presidente Honorário da Fundação Centro José Saramago
Membro do Comité de Honra da Fundação Rafael Alberti

Equador

Medalha Guayasamín - Unesco
Medalha «General Rumiñahui» Pichincha
Grã Cruz de Mérito Cultural e Literário do Congresso Nacional
Grã Cruz de Mérito Educativo e Cultural «Juan Montalvo»
Hóspede Ilustre, São Francisco de Quito

México

Medalha Isidro Fabela da Faculdade do Distrito de UNAM
Reconhecimento, Faculdade de Direito, Universidade do México

República Dominicana

Visitante Distinguido, Santo Domingo

Chile

Medalha Reitoral, Universidade do Chile

Colômbia

Membro Honorário do Colégio Máximo das Academias
Membro Honorário do Conselho Supremo das Academias
Membro Honorário do Instituto Caro y Cuervo de Bogotá

Costa Rica

Visitante Distinguido, São José da Costa Rica

EUA

Membro da Academia Internacional de Humanismo

Bélgica

Membro Honorário do Conselho Consultivo do Tribunal de Bruxelas

Itália

Membro Honoris Causa do Conselho do Instituto de Filosofia da Universidade de Pisa

Argentina

Membro Correspondente da Academia Argentina de Letras

Prémio Save the Children (edição 2007) da Organização Não Governamental (ONG) Save the Children

O famoso ensaísta e crítico americano Harold Bloom considerou que “Saramago é extraordinário, quase um Shakespeare entre os romancistas: não há nenhum outro ficcionista vivo nos EUA, na América do Sul ou na Europa com a sua versatilidade”, tendo acrescentado que, de entre os prémios recentemente concedidos pela Academia Sueca, só o que foi conferido a Saramago foi “realmente atribuído”.

Foi um subversor - não apenas de mentalidades mas também da escrita. Revolucionou as normas da construção literária, inovou e transfigurou o processo narrativo, adoptando longas frases sem pontos finais, com o uso abundante de vírgulas, de capitulares para identificar o início do discurso das personagens e a ausência de travessões antes das falas dos interlocutores. Construiu um estilo único e magistral na língua portuguesa. Provocou uma revolução no romance histórico, com a recuperação do nosso património como ponto de partida de uma recriação fantástica, atravessada de ironia. A sua técnica inovadora de construção romanesca é acompanhada pelo desenvolvimento de temas que lhe são queridos, como o papel determinante que confere à mulher, o seu ateísmo confesso ou a particular atenção consagrada aos mais desfavorecidos e oprimidos. A dimensão humanista e uma subtil ironia perpassam transversalmente toda a sua obra.

O leitor, que, no início da leitura, é tomado de assombro por uma construção gramatical inédita e pouco acessível, deixa-se prender e fascinar não só pela oralidade da narração, mas também pela genial utilização das metáforas e dos adjectivos surpreendentes. A estranheza do seu estilo de pontuação causou  um tal impacto, que o próprio escritor, frequentemente questionado, o explicou melhor que ninguém: “É como narrador oral que me vejo quando escrevo e as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas. Ora o narrador oral não preciosa de pontuação, fala como se estivesse a compor música e usa os mesmos elementos que o músico: sons e pausas, altos e baixos, uns, breves ou longas, outras.” (Caderno de Lanzarote (Diário II, de 1994). Partiu, muitas vezes, de pequenos pormenores, aparentemente pouco importantes, para desenvolver efabulações fantásticas, pontilhadas de elementos mágicos e de um discurso crítico, que entrecruzou dialecticamente passado, presente e futuro. Não se submeteu a cânones literários restritos, nem se pode inscrever a sua escrita numa qualquer escola literária existente. Simplesmente inventou o estilo mais “fabuloso” e socialmente comprometido desde a segunda metade do século XX até ao final da primeira década do século XXI.

Editado em 56 países, Saramago, é definido por Umberto Eco como “delicado tecedor de parábolas”, que cumpria “de modo desassombrado a missão de comentador quotidiano da realidade”.

Exerceu, como nenhum outro escritor do seu tempo, o direito de cidadania. Nada lhe era estranho nem distante. O seu espírito crítico aguçado não poupava nada. Até ao fim ninguém o calou. Até ao fim escreveu. Quando, em 2008, saiu do hospital, relativizou a doença, considerando que não valia a pena preocupar-se muito. Tudo era relativo e viveria o tempo que lhe faltasse. “Morrer é simplesmente natural”, disse. Com a sua habitual determinação e disciplina continuou o labor da escrita.

No último discurso em Lisboa, quando Caim foi oficialmente lançado no Grande Auditório da Culturgest, Saramago, foi alvo de uma emotiva homenagem, com muitas e prolongadas ovações. Se antes (na revista Ler, Outubro de 1991) tinha revelado a sua paixão por Jesus Cristo, dizendo “que é uma figura fascinante” e que “todo o escritor, deveria, um dia, confrontar-se com a figura de Jesus Cristo”, nesse discurso que proferiu a 30 de Outubro de 2009, declarou:”O que eu faço é blasfemar”. E confessou:

“Gostaria de ter escrito um livro a que poderia ter posto o título de O Livro do Desassossego, mas Fernando Pessoa antecipou-se. O meu desassossego não é o mesmo que o dele, mas o título convinha-me. Como não tive sossego, quero desassossegar os outros”

No dia 18 de Junho de 2010 chegou ao fim, serenamente, a vida de José, na sua casa de Lanzarote. Um avião C-130 da Força Aérea Portuguesa trouxe os restos mortais do escritor, cujo corpo esteve em câmara ardente na Câmara Municipal de Lisboa, até ser cremado no cemitério do Alto de S. João. A notícia da sua morte espalhou-se rapidamente pela internet e pela comunicação social de todo o mundo, que o considerou um génio da escrita.

José Saramago, polémico e único, tornou a língua e a cultura portuguesa universais.

“Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir;
Quando a noite é de mais é que amanhece

A cor de primavera que há-de vir.”

 

Teresa Sampaio, Junho de 2010

 

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