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FLORBELA ESPANCA

 

[n. Vila Viçosa,8-12-1894 — m. Matosinhos, 8-12-1930]

 

 

Filha de uma ligação extramatrimonial mas com uma infância feliz, fez de forma sincopada os estudos liceais em Évora e seguiu irregularmente aulas de Direito em Lisboa. Manifestando precocemente a vocação poética, também desde cedo experimentará a insegurança psicológica, os sofrimentos morais, a doença. A sua breve vida é amargamente perturbada por três experiências matrimoniais infelizes e outras   paixões malogradas, pelos abalos de abortos naturais e pela frustação decisiva do seu desejo de maternidade, pelo túrbido afecto ao irmão e pela morte súbita e brutal de Apeles, pela debilidade da sua saúde, que se manifesta pelo menos desde 1919 até se agravar em doenças várias e sobretudo na neurose galopante. Julgando-se incompreendida e afectivamente desamparada, Florbela sente-se também sujeita à pressão de ambientes  adversos á sua singularidade idiossincrásica e ao irridentismo ético-social da sua trajectória existencial. Por outro lado, sendo notório, a partir de 1915 o empenho na divulgação da própria obra e no contacto com meios culturais, chocou-se quase sempre com o descaso, viu-se quase sempre remetida para a obscuridade; mau grado as relações de amizade com um ou outro escritor (Américo Durão, José Schmidt  Rau, Bourbon e Meneses, Raul Proença...), Florbela nunca se viu integrada em nenhum grupo literário, nem  solicitada a colaborar em qualquer periódico relevante;  mesmo  no  que  toca   aos   quotidianos  de   grande circulação, são raríssimos os textos de Florbela neles publicados; colaboração regular, em  períodos aliás fugazes, só na Modas & Bordados (suplemento de O Século) em 1916, no jornal Dom Nuno, de Vila Viçosa, na revista Portugal Feminino em 1930!... De igual modo, foram sempre grandes, quando não insuperáveis, as dificuldades para encontrar editor; e antes da morte poucas ressonâncias qualificadas alcançara a sua obra nos meios literários. Todavia, após o suicídio com que porá remate à vida de amargura, tudo isto vai contribuir para certas valorizações hiperbólicas na recepção tardia da sua obra; e tudo isso vai convergir com uma estratégia textual tão pulsional quanto eficaz, sobretudo quando passa a ser lida à luz das observações de José Régio sobre o donjuanismo feminino que genitalizava a obra da poetisa, Florbela constitui-se, assim, num mito literário, para além das qualidades e dos defeitos da sua obra. Em contrapartida, é facto que os meios em que se forma (ou em que depois se moverá) e as limitações culturais detectáveis e compreensíveis na personalidade de Florbela trazem à sua poesia e à sua narrativa recorrentes marcas de kitsch.

Quando em 1919 sai o  Livro de Mágoas, já há muitos anos Florbela vinha manifestando a sua vocação, primeiro de forma dispersa ou recolhida, depois, a partir de 1915, de forma intensiva e buscando ansiosamente vias de publicação. Data de então um grande caderno de poemas e alguns contos intitulado Trocando Olhares, que chega a abarcar projectos vários de livros (A Minha Terra, O Meu Amor, O Livro d'Ele...); e em 1916 integra-se no apoio da nossa poesia neo-romântica à beligerância de Portugal com os poemas de mais um malogrado livro: Alma de Portugal. De igual modo se depois da publicação do segundo livro de sonetos Livro de Soror Saudade (1923), se verifica uma suspensão da criatividade (só saindo esporadicamente em jornais e revistas, de 1924 a 1928, poemas anteriormente compostos), já em 1927 última os livros de contos O Dominó Preto e As Máscaras do Destino (gerado na reacção pungente ao desastre de aviação que vitimou Apeles), para os quais no ano seguinte procurará em vão editor, tal como ocorrerá em 1929 para o terceiro livro de sonetos, Charneca em Flor. Todos aguardarão pela publicação póstuma; e se logo em 1931, graças a Giido Battelli, Juvenilia e Reliquiae vêm alargar o corpus poético editado de Florbela, só mais de meio século após a sua morte se realizou a edição global dos seus versos e contos, das cartas e do Diário do Último Ano.

Segundo Seabra Pereira, Florbela parte de uma situação literária compósita, em que o decadentismo predomina sobre as compensações emotivas do neo-romantismo lusitanista. No cerne dessa situação está o que constituirá o ponto de convergência de Livro de Mágoas: a emergência de uma vocação poética  maldita,  abismada  no autodesconhecimento e perante a fatalidade que parece determinar a deriva existencial de uma mulher soturna e ansiosa, convulsa e sombria, languescente e agónica, a um tempo evasiva, ufana e dolorida. Depois, Florbela acentua os traços expressivistas e pitorescos do neo-romantismo lusitanista, mas aventura-se também por outros caminhos que de forma diferente a conduziriam para além da crise decadentista: incorpora-se nas tendências jubilosas, sensuais e hedonistas do neo-romantismo vitalista, reformula o seu mito pessoal e feminino (alicerçado na afirmação anterior da grandeza maldita da vocação poética). A partir da primazia do passional e a partir da convicção de que o amor tem a sua ética própria, já certos passos de Trocando Olhares subvertem num feminino singular o erotismo tradicional. Mas, no caminho difícil para a emancipação, este eu feminino tem de identificar-se  com um duplo mítico, Anto. Trata-se de uma estratégia de emancipação mediante transfert para um mito poético através do qual a feminilidade, afinal, vencera já. No livro originariamente intitulado Claustro das Quimeras e depois chamado Livro de Soror Saudade, a explosão vitalista revela-se insustível, de «Alentejano» para «Que importa?,..», de «O nosso mundo» para  "Exaltação»' — soneto final onde a ânsia de expansão e de hedonismo erótico se liga à revolta titânica contra todas as restrições.

É este ímpeto insólito que consagram vários poemas de Charneca em Flor e de Reliquiae: «Charneca em flor», «Primavera», «Panteísmo» e outros sonetos exprimem a adunação da Natureza e da subjectividade na nova apoteose da energia vital e da apetência desinibida. Menos dotada na prosa, Florbela Espanca oferece ainda, nos contos e sobretudo no breve Diário, curiosas modulações primonovecentistas da aventura do eu romântico — pois por detrás dos roteiros da insatisfação e dos registos da derrota passional é o malogro do Eu absoluto que sangra. Utilizou também os nomes Flor Bela Lobo e Florbela d'Alma da Conceição Espanca.

 

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses
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