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EGITO GONÇALVES

 

[N. Matosinhos, 8 de Abril de 1920 - M. Porto, 29 de Janeiro de 2001]

 

 

 José Egito de Oliveira Gonçalves (Matosinhos, 8 de Abril de 1920 - Porto, 29 de Janeiro de 2001), mais conhecido por Egito Gonçalves, foi poeta, editor e tradutor. 

Depois de efectuar estudos técnicos na cidade do Porto, Egito Gonçalves iniciou a sua actividade literária durante o serviço militar em Ponta Delgada (Açores), tendo publicado os primeiros livros em 1950. Foi administrador de uma editora, tendo igualmente chefiado o Gabinete de Marketing de uma Seguradora. A sua intensa actividade de divulgação cultural e literária concretizou-se, a partir dos anos 50, na fundação e/ou direcção de diversas revistas literárias, como A Serpente (1951), Árvore (1952-54), Notícias do Bloqueio (1957-61), Plano (1965-68; publicada pelo Cineclube do Porto) e Limiar, ainda em curso de publicação. Foi igualmente director da colecção de poesia «Os olhos e a memória», da editora portuense Limiar. 
 
Importantes para a divulgação da poesia dos anos cinquenta e sessenta, quer de carácter neo-realista, quer surrealista, é de assinalar que participaram nestas revistas autores de ambas as vertentes, bem como de correntes anteriores, entre os quais José Gomes Ferreira, Alexandre Pinheiro Torres, Mário Cesariny, Adolfo Casais Monteiro. Nos «fascículos de poesia» Notícias do Bloqueio, sem uma dimensão ideológica explícita, colaboraram, no entanto, autores de poesia empenhada, bem como autores africanos (Angola e Moçambique): José Craveirinha, Rui Knopfli, Agostinho Neto. 
 
Egito Gonçalves participou em vários movimentos anti-fascistas, no plano cultural e no da acção política da oposição democrática, tendo pertencido ao M.U.D. e às Comissões Nacional e Executiva do III Congresso de Aveiro, e desenvolveu actividades de animação cultural no Porto, tendo pertencido à direcção do Teatro Experimental do Porto, do Cineclube do Porto, da Cooperativa Árvore e da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, assim como integrou organismos nacionais: Sociedade Portuguesa de Escritores (Delegação Norte), Associação Portuguesa de Escritores, Sociedade Portuguesa de Autores e PEN Clube Português. 
 
Internacionalmente, pertenceu ao Congresso para a Liberdade da Cultura (França) e à Comunitá Europea degli Scrittori (Itália). Foi membro da Hispanic Society of America (Nova Iorque) e correspondente do Centre International d'Études Poétiques (Bélgica). 
 
Dedicou-se também à tradução de poesia, sendo autor de uma Antologia da Poesia Espanhola do Após-Guerra (1962) bem como de recolhas de poetas como Pier Paolo Pasolini, Nicola Vaptzarov, Attila Józef, Yannis Ritsos, Roberto Juarroz, Eeva Liisa-Männer, Guillevic, Derek Walcott, etc. Foi-lhe atribuído o Prémio de Tradução Calouste Gulbenkian, da Academia das Ciências de Lisboa - 1977, com a sua selecção de Poemas da Resistência Chilena e, em 1985, o Prémio Internacional Nicola Vaptzarov, da União de Escritores Búlgaros. 
 
Obteve ainda o Prémio de Poesia do Pen Clube - 1995 e o Grande Prémio de Poesia da APE com o seu livro E No Entanto Move-se (1995), obra que teve igualmente o Prémio Complementar Eça de Queirós, da Câmara Municipal de Lisboa. Em 1994 foi condecorado pelo Presidente da República com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. É também condecorado com a Ordem de Cirilo e Metódio (1ª. classe) do Estado Búlgaro, tem a medalha «Pro Cultura Hungarica» do Governo Húngaro, a Medalha de Bronze da «Renaissance International des Arts et des Lettres» de Paris e a Medalha de Mérito Dourado, concedida pelo Município de Matosinhos, cidade em que nasceu. 
 
Iniciada nos anos 50, com a publicação de Poemas Para os Companheiros da Ilha, a obra de Egito Gonçalves move-se entre os postulados quer de referencialidade espacio-temporal – nas suas vertentes testemunhal e intimista –, quer de reflexão metapoética. Se o pendor realista da sua poesia remete para um processo dialogal com o real – paisagens, cidades, viagens –, trata-se de «viver com o país / a mesma linguagem», (Poemas Políticos). Assim estão mutuamente implicados quer o entendimento da escrita como a «reconstituição de um / alfabeto» (Destruição: Dois Pontos), quer a consequente importância mnemónica das imagens poéticas e geo-gráficas: pelo modo de subjectivação do tempo e seus ciclos (em que está presente a noção de isocronia), a poesia de Egito Gonçalves opera um duplo reenvio ao exterior e à interioridade. 
 
Na exploração desta interioridade se insere uma outra importante vertente da sua poesia, a da lírica do amor, bem evidente, por exemplo, em Mapa do Tesouro: se esta poesia em prosa é movida pelo «funcionamento centrípeto em torno dos sentimentos e da sua sombra», trata-se não só de nomear «a mão feliz que guiou o itinerário / ao longo dos sinuosos veios deste mapa» – o objecto do amor –, mas também de «receb[er] o [...] rosto na ausência, impresso no papel como se saísse de um espelho». 
 
A sua obra encontra-se traduzida em francês, polaco, búlgaro, inglês, turco, romeno, catalão e castelhano (Crespo, Angel, Treinta Poemas...de E.G., Espanha, 1962). 
 
 
Fonte: Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998 

 

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