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ANTERO DE QUENTAL

 

[N. Ponta Delgada, 18-4-1842 — m. Ponta Delgada, 11-9-1891]

 

 

Poeta e ensaísta, domina toda a chamada geração de 70, de que foi o ideólogo destacado, muito mais pelo seu espírito, cultura e dignidade moral do que pela escassa obra literária que deixou.

Nascido numa família da velha aristocracia micaelense, onde, desde sempre, santos e revolucionários conviviam lado a lado, matriculou-se em 1858 na Faculdade de Direito em Coimbra, tornando-se desde logo o líder da juventude estudantil em luta contra o conservadorismo académico, intelectual e político da época.

Foi sob a influência dos românticos, principalmente Lamartine, Victor Hugo e até Soares de Passos, que começou a compor os seus primeiros versos, reunidos posteriormente nas Primaveras Românticas, editadas em 1872.
Todavia, ao sair «decidida e conscientemente da velha estrada da tradição», e sobretudo após a descoberta de Michelet, Proudhon e Hegel, a sua poesia transforma-se, segundo ele, na «própria voz da Revolução». A edição das Odes Modernas, em 1865, desencadeou a nossa ainda hoje maior polémica literária — a Questão Coimbrã —, onde o ultra-romantismo conservador de Castilho e da sua escola foi zurzido sem piedade por um jovem de 23 anos em luta contra a falta de liberdade criativa que dominava a anacrónica «presidência» das letras portuguesas.

Concluído o curso, e após um período de indecisão (experiência como tipógrafo cm Paris, curta militância nos ideais do iberismo, viagem aos Estados Unidos da América), lança-se numa febril actividade política. Funda associações operárias, publica folhetos de propaganda socialista, dirige jornais republicanos. Este período culmina com a organização das Conferências do Casino, inauguradas em Lisboa em Maio de 1871, que se destinavam a estudar as condições de transformação política, económica, religiosa e intelectual da sociedade portuguesa. Antero profere a segunda conferência, «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares», que, segundo o seu critério, teriam sido a Inquisição, o absolutismo monárquico e as conquistas, que produziram uma catastrófica decadência económica.
Com o encerramento compulsivo das Conferências, que lhe mereceu uma carta violentíssima dirigida ao primeiro-ministro, duque de Ávila e Bolama, o cansaço próprio da vida moralmente agitada de panfletário e os primeiros sintomas graves de uma doença que nem Sousa Martins nem Charcot conseguiram diagnosticar, Antero, após uma curta estada em Paris, afasta-se da vida activa e instala-se em Vila do Conde, onde se conservará durante cerca de dez anos.

Como poeta, actividade que nunca abandonou, a sua maior obra são os Sonetos, publicados em 1886, prefaciados por Oliveira Martins e apresentados de modo a formarem uma espécie de autobiografia intelectual, mas onde a parte afirmativa do final — a luta que finda pela vitória da razão e do sentimento moral — («Evolução», «Redenção», «Solemnia verba» e «Na mão de Deus») é significativamente reduzida quando comparada com a extensão que ocupa o tema da morte, do desespero, do pessimismo.

Com os Sonetos encerra-se o ciclo poético anteriano, e as ideias filosóficas que procurou apresentar em verso — «o idealismo dentro do naturalismo e o optimismo dentro do pessimismo» — irão ser desenvolvidas em prosa no ensaio Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX, onde, na qualidade de «antigo hegeliano que depois lera Leibniz», reage contra o positivismo científico da época e que António Sérgio definiu como «um livro de esperança a que a aspiração moral levou um pessimista».

A presidência da Liga Patriótica do Norte, em 1890, constitui o seu último acto público. Em Junho de 1891 regressa a São Miguel e é em Ponta Delgada que se suicida, em Setembro desse ano, quando se preparava para regressar a Lisboa.

Se a análise temática e ideológica da obra anteriana tem sido feita com alguma abundância, o seu valor literário tem sido com menos frequência e eficácia alvo de sondagem exaustiva. Não é ainda muito claro o que pensam da «arte poética» do Antero dos Sonetos alguns dos nossos melhores críticos. A alta figura moral do autor das Odes Modernas, a sua afrontosa coragem e eloquência como que inibem uma análise objectiva de algumas das suas fraquezas como artista. Por outro lado, o prosador de ideias, o polemista, o epistológrafo, mereciam uma análise meticulosa, que revelaria, é quase certo, um dos mais notáveis e eficazes artistas da prosa de toda a nossa história literária.

 

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses
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