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MATILDE ROSA ARAÚJO

 

[N. Lisboa, 20-6-1921 - m. Lisboa, 6-7-2010]

 

 

Matilde Rosa Araújo nasceu numa quinta que os avós possuíam, em Lisboa, a 20 de Junho de 1921. Estudou em casa com professores particulares e licenciou-se, em 1945, em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. A sua tese, denominada "A Reportagem como género: génese do jornalismo através do constante histórico-literário" foi inteiramente precursora para a época. Pela primeira vez, em Portugal, se elegia o jornalismo para objecto de análise académica. Igualmente se tornaria inovadora na pedagogia, na literatura e na defesa dos direitos das crianças.

Culta, detentora de um espírito aberto e de profunda sensibilidade, exerceu  a carreira docente, durante mais de 40 anos, no ensino secundário técnico-profissional. Leccionou também "Literatura Infantil", na Escola do Magistério Primário de Lisboa, enquanto se dedicava à carreira literária, como ficcionista, poetisa, cronista e à pedagogia.

Com uma actividade multifacetada e uma preocupação sempre didáctica e moralizante, não só colaborou em inúmeros órgãos de comunicação social, como de dedicou, de alma e  coração, à literatura, especialmente a infantil. Escreveu crónicas, artigos, contos e poemas para o Jornal do Fundão, A Capital, O Comércio do Porto, Comércio do Funchal, Jornal do Comércio, Diário de Notícias, República, Diário de Lisboa e nas revistas Graal, Vértice, Seara Nova, Litoral, Gazeta Literária, Colóquio/Letras e na Távola Redonda, onde deixou uma evocação emocionada de Sebastião da Gama, de quem tinha sido colega na universidade.

Literariamente, estreou-se com A Garrana, em 1943, vencendo o concurso "Procura-se um Novelista", patrocinado pelo jornal O Século e pelo Rádio Clube Português e em cujo júri participava Aquilino Ribeiro. Só em 1956 deu início à sua vasta produção de literatura infanto-juvenil, editando Poemas Infantis, no n.º3 da revista Graal e, em 1957, O Livro de Tila (nome pelo qual era conhecida entre os amigos), cujos poemas foram musicados por Lopes Graça.

Como salientou o Professor José António Gomes (In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 140/141, Abr. 1996, p. 250-253.): "No ideal, de progresso social e humano e de comunhão com o Outro que a poética de Matilde corporiza, assume especial relevo o papel da criança como reserva de humanidade, garante de um futuro melhor, homem em projecto. Os meninos são assim elevados à condição de grandes intuidores do mundo e da vida, interlocutores privilegiados de Deus e executores do Seu plano na Terra".

A sua dedicação às crianças levou-a a tornar-se sócia fundadora do Comité Português da UNICEF, do Instituto de Apoio à Criança e a defender a utilidade da literatura infanto-juvenil na formação educacional e humanista.

Várias gerações de ilustradores portugueses colaboraram com a escritora, como Maria Keil, Gémeo Luís e João Fazenda, entre outros.

Em 1980 foi-lhe atribuído, ex-aequo com Ricardo Alberti, o Grande Prémio de Literatura para Criança da Fundação Calouste Gulbenkian, que havia de distingui-la novamente pelo seu livro de poesia Fadas Verdes, com o Prémio para o Melhor Livro para a Infância, publicado no biénio 1994-1995.

Anteriormente, em 1991, a Associação de Críticos de Arte de São Paulo, Brasil, consagrara a sua obra O Palhaço Verde, com o Prémio para o Melhor Livro Estrangeiro.

Em 1994 e novamente em 2006 a escritora foi nomeada pela secção portuguesa do IBBI  (International Board on Books for Young People) para o prémio Hans Christian Andersen, o equivalente ao Nobel da Literatura para a infância. 

Em 2003, no Dia Internacional da Mulher, o  então Presidente da República, Jorge Sampaio condecorou-a  e, em 2004, a SPA (Sociedade Portuguesa de Autores), de que tinha sido directora em 1965, decidiu, por unanimidade, agraciá-la com o Prémio de Consagração de Carreira, pela sua "obra de particular relevância no domínio da literatura infanto-juvenil". Considerando que era uma "generosidade muito grande por uma carreira que me deu mais a mim do que eu dei a ela", a escritora explicou: "Os jovens ensinaram-me uma espécie de luz da vida", acrescentando que "o seu olhar é de uma verdade intensa e absoluta". O encantamento era mútuo. Matilde dedicou a vida à defesa dos direitos das crianças e a sua escrita revelava a ternura que por elas nutria. Conheceu dezenas de escolas por esse Portugal fora e a idade não a impedia de se deslocar  aos estabelecimentos de ensino ou  às bibliotecas municipais  para transmitir  conhecimentos e sonhos e cativar com a doçura do seu sorriso.

No concelho de Cascais, onde viveu durante muitos anos, a Escola Básica 2,3 de São Domingos de Rana e a Biblioteca Municipal de Alcabideche foram baptizadas com o seu nome.

Na madrugada do dia 6 de Julho de 2010, aos 89 anos, Matilde Rosa Araújo faleceu, na sequência de problemas renais, na casa em que vivia, em Lisboa. Depois de estar em câmara ardente na Sala-Galeria Carlos Paredes da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), o funeral da escritora realizou-se no dia seguinte, no cemitério dos Prazeres. No dia da sua morte, a Câmara Municipal de Cascais decidiu, por unanimidade, atribuir-lhe, a título póstumo, a Medalha de Honra do Município. Dez anos antes  a autarquia tinha também instituído o Prémio Literário Matilde Rosa Araújo - Revelação na Literatura Infantil e Juvenil para prestar homenagem à autora pelo incentivo à escrita para os mais jovens.

Discreta e afável, Matilde nunca procurou a fama e vivia a sua missão de escritora como um sacerdócio. A "fada madrinha da literatura infantil", como António Torrado lhe chamou, era senhora de uma alegria e de um humor, que os amigos  conheciam no convívio mais informal. Alguns anos antes da sua morte, tinha fracturado uma perna enquanto dançava o tango com a irmã, na sala da sua casa. Foi essa juventude de espírito e imensa ternura que soube tão bem transmitir aos mais pequenos e às gerações futuras de jovens escritores, que tanto incentivou.

O seu desaparecimento físico foi alvo de inúmeras manifestações solidárias e emocionadas quer institucionais, quer dos seus pares e amigos.

Segundo o testemunho comovido do amigo e escritor António Torrado, Matilde foi professora e escritora com dedicação total, tendo inaugurado "uma modalidade poética séria para as crianças, sem ceder à poesia infantilizante que se fazia".

Para Luísa Ducla Soares, foi uma "espécie de mãe", que morreu, "uma pessoa que nasceu para encontrar o bem e para o espalhar", uma "fonte de graça e humor, por oposição à faceta doce, carinhosa e melancólica que a maioria das pessoas conheceu".

O presidente da Associação Portuguesa de Escritores, José Manuel Mendes referiu-se-lhe como "uma mulher de grande abertura ao mundo, incrivelmente generosa e participativa",  responsável "pelo inventário e reinvenção do imaginário infanto-juvenil".

Incansável no seu labor literário, a escritora deixou pronta para publicação a  obra Florinda e o Pai Natal, que seria editada postumamente, com ilustrações de Maria Keil.

Os meninos de ontem não a esquecem. Os de hoje e de manhã conhecê-la-ão, porque:

                         "Os meninos em si são flores
                         Flores doces mornas vindas de uma ilha de sol".


Matilde Rosa Araújo é um exemplo de humanismo, de pureza e intensa sensibilidade, de que o poema Vida é apenas um símbolo:
 
                         - Mãe! O mundo é mau,
                         Torna a flor num lodo
                         E um pássaro num verme,
                         E eu não sabia...

                         -  Filha! Semeia flores no lodo,
                         Empresta o teu canto ao verme.
                         Se as tuas mãos continuarem puras
                         E meigo o teu coração, 
                         Acredita que o mundo é belo.
                         E saberás!

                                                       

 

Teresa Sampaio, 7 de Julho de 2010
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