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MANUEL DA FONSECA

 

[N. Santiago do Cacém, 15-10-1911 — m. Lisboa, 11-3-1993]

 

 

Manuel Dias da Fonseca

Fez a instrução primária em Santiago, no meio de uma família oriunda de Castro Verde e do Cercal do Alentejo. Em Lisboa, frequentou o Colégio Vasco da Gama, o Liceu Camões, a Escola Lusitânia e, ainda, a Escola de Belas-Artes. Nas férias, regressava a Santiago (Cerromaior, nas suas obras), a casa dos avós, ou, posteriormente, de uma tia.

Exerceu actividades muito díspares, quer na área do comércio, quer na da indústria, tendo ainda trabalhado em jornais e revistas e numa agência de publicidade.

"Em Cerromaior nasci. / Depois, quando as forças deram / para andar, desci ao largo. / Depois, tomei os caminhos / que havia e mais outros que / depois desses eu sabia."

Se estivermos atentos aos seus livros, saberemos muito mais do autor, pois a sua obra é fortemente autobiográfica, já que as personagens que recriou (delineadas por forças internas) e a realidade, nela descrita, estão intimamente ligadas a experiências vividas e a uma unidade psicológica extremamente coesa.

"Uma vez lançado, a realidade e a invenção, mascaradas, jogam às escondidas comigo - nunca sei ao certo, em cada momento, qual delas preside ao que escrevo", disse em entrevista.

Respirando e vivendo as memórias do Alentejo, este é, na verdade, parte de um todo, e Santiago é o espaço do conhecimento e tempo da revelação, memórias indeléveis do seu primeiro mundo.

A infância, a adolescência e o mítico Largo serão condicionantes da sua criatividade, observáveis em qualquer dos seus livros; e a ideia de se assumir cumulativamente como vagabundo é tão normal que a repete, tanto na sua poesia ou ficção como em prefácios ou entrevistas, deixando-nos assim uma imagem repassada por uma grande dor inicial: a de uma casa que verdadeiramente nunca teve.

"Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas... Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo... O Largo é o lugar da igualdade (mas, depois)... a vida mudou-se para o outro lado da vila."

Antigamente: a infância, a alegria, a paixão, o equilíbrio e a comunhão vivida no Alentejo, tudo foi substituído pela visão do adulto, pela dor, cinzas e solidão encontradas na cidade.

Os pontos de vista do escritor, que evoca o antes, donde o Largo e o Alentejo representarem as raízes embebidas no mítico e na idealização, e a presentificação dorida do agora, onde se observa a omnipresença dos olhos-ouvidos, "ouvidos para ouvir / e olhos para ver", indicar-nos-ão as duas perspectivas adoptadas pelo poeta e ficcionista, numa visão sempre terna e generosa, mas que reflectem bem a sua personalidade. É pois natural que um tom confessional e coloquial, vivo, ressalte da sua escrita; que o narrador seja também personagem; e que as primeiras figuras, líricas e heróicas, caracterizadas por um excesso de vida e de paixão, se tenham transformado em figuras nostálgicas, exiladas, solitárias e inadaptadas à realidade em que vivem: "André Juliano, meu amigo de infância, como nós mudámos!"

Um "ano de grande fome" foi o momento em que perdeu o paraíso e lhe definiu a passagem para outros espaços. É o "forno" que se desmorona, em Seara de Vento, é a mudança operada em Adriano, em Cerromaior. A sensualidade, a expressão espontânea (porque mais interior e verdadeira), a organização plástica, a ductilidade semântica e a sua originalidade esbatem-se, nas últimas obras, apesar de nelas guardar o essencial, integrando e coordenando as multissignificações simbólicas em que o autor sempre foi mestre, porque a criação poética é isso mesmo, intimamente ligada a um falar interior, aos objectos que navegam no nosso corpo secreto.

Por isso, "tudo o que há no novelista preexistiu, em embrião, no poeta", e será difícil estudar a sua ficção ou a sua poesia como produções autónomas.

"A observação do homem e dos seus problemas - esclarece em entrevista - tem de ser contada de um modo pessoalíssimo". Ora é este pressuposto que o impede de cair em "clichés" e em empolgamentos ideológicos. A perspectiva neo-realista, na sua obra, emerge cândida e com naturalidade pelo facto de descrever camponeses e patrões naqueles espaços alentejanos, associada à grande capacidade de ternura e compreensão dos seus semelhantes. Donde, ao escrever "Aquela raça de lavradores antigos acabou-se" não o faça contra o próprio lavrador, mas contra as adversidades e alterações que acabaram por deteriorar o ancestral equilíbrio vivido, no Largo, pelo homem alentejano, apaixonado e violento, porém compassivo e companheiro.

São essas transformações que o escritor acabou por retratar através dos olhos e da sensibilidade do menino ou rapaz que se defronta e abre aos problemas da sua região natal, repostas pelo adulto que as observa como factos que o ultrapassam mas que não explicará através da perspectiva da luta de classes.

"Sou barco de vela e remo / sou vagabundo do mar... não tenho rota marcada." Desta forma, foram os seus dramas e lutas interiores que lhe realizaram a obra, espelhando o conflito entre o mundo mítico, primeiro, e a realidade social posterior, injusta, sim, mas para a qual não propôs qualquer solução, já que foi céptico quanto ao advento de um mundo melhor.

Trata-se, na verdade, de uma ideologia muito pessoal, que olha o passado afectivamente, como se o preferisse, o que não impede que a sua obra se inscreva no espírito e movimento neo-realista, ainda que de forma mais universal, ao colocar o indivíduo num centro e num plano diferentes daqueles para que aponta a realização colectiva.

 

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses
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