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ANTÓNIO BOTTO

 

[N. Casal de Concavada, Abrantes,17-8-1897 — m. Rio de Janeiro,16-3-1959]

 

 

António Tomás Botto nasceu em Casal de Concavada, Abrantes, em 1897 e morreu no Rio de Janeiro, em 1959.

«Literariamente, assinou sempre António Botto (ou Boto, só com um t, na fase derradeira).

Poeta e contista. Na infância residiu em Alfama, cujo ambiente virá a projectar em alguns dos seus poemas, no decadentismo amoroso da novela dramática António, ou no populismo da peça em 3 actos, Alfama. Na juventude, começou por ser empregado numa livraria de Lisboa, fez várias viagens ao estrangeiro e numa instabilidade que parece ter sido determinada essencialmente pela sua própria personalidade, foi, entre 1924 e 1925, funcionário público em Angola, voltando depois a Lisboa para trabalhar, primeiro, no posto antropométrico do Governo Civil e, depois, noutros sucessivos e efémeros empregos. Expulso, em 1942, do funcionalismo público, em 1947 partiu, já mentalmente afectado pelas dificuldades materiais, para o Brasil, onde viria a morrer atropelado.

A obra de A. Botto encontra-se intimamente associada ao modernismo português: com o que aqui se quer significar tanto o acolhimento que encontrou nos seus mentores e nas principais revistas de vanguarda da época — casos da Athena, da Águia, da Presença e, sobretudo, da Contemporânea — como a sua inserção nas rupturas estéticas que o movimento modernista representa na evolução da nossa história literária. Testemunhos de tal interesse são os vários textos de reflexão e polémica que as suas Canções motivaram em Fernando Pessoa (cf. «António Botto e o ideal estético em portugal», in Contemporânea, 1922), em Raul Leal (Sodoma Divinizada, 1923), em Mário Saa («António Botto — o espiritualista da matéria — Em desagravo do insulto que o Poeta sofreu quando da apreensão brutal do seu livro Canções», apêndice á edição de 1924 das Curiosidades Estéticas de A. Botto), em Casais Monteiro, Afonso Duarte, Gaspar Simões, Teixeira-Gomes (autor do «Posfácio» às Canções, 1930), José Régio.

Mas se de algum modo o que no caso de A. Botto suscitou interesse e polémica (exaltados, os defensores de conceitos estéticos e morais mais conservadores terão contribuído para a apreensão da 2.ª ed. das Canções, em 1922) foi o escândalo de uma homossexualidade transparentemente confessada nos seus versos, não é evidentemente aí que reside o seu modernismo literário ou a modernidade da sua mundividência. Como aponta. Jorge de Sena (in Líricas Portuguesas, 3.ª s. 2.ª ed. 1958), «nem sempre Botto soube, na sua fusão do popular e do "refinado", manejar a autocrítica suficiente a evitar superficialidades, convencionalismos literários [...], ou algum mau gosto eventual [...]. Mas conseguiu transformar o versilibrismo pós-simbolista [...] em microdramas de uma subtileza psicológica e emocional por vezes admirável, brevíssimos monólogos dramáticos, densos da amarga teatralidade dos encontros e das separações eróticas, em que os versos desarticulados ou as pausas e os intervalos estróficos adquirem uma poderosa capacidade ex-pressional. Estes desenvolvimentos, como o coloquialismo conversado ou segredado, ou a extrema contensão retórica dos versos, transcendiam por completo a tradição literária de que provinham».

Num longo ensaio — António Botto e o Amor, 1938 —, José Régio resume assim, por seu turno, os processos específicos da atitude estética do autor:«Chamei intelectualismo e criticismo de António Botto à intervenção das suas faculdades de observação, análise e juízo nas cousas da sua sensibilidade. Chamei psicologismo à sua faculdade de conhecer ou imaginar a vida interior própria ou alheia. Chamei dramatismo á sua tendência a opor entre si sentimentos, instintos e atitudes, desencadeando conflitos ou propondo pro¬blemas cuja solução deixa em suspenso. Chamei narcisismo ao seu interesse e gosto por si próprio, contra e sobre outros amores. Chamei esteticismo ao seu anseio da beleza [...]. Aventurei que da coexistência, no poeta, do fundo lírico e temperamento amoroso com essas inclinações pouco favoráveis ao puro lirismo e ao cego amor vidente — resultaria a sua posição trágica perante o amor.[...]»

Deste modo, se a consciência dramática das contradições amorosas é antiga, a modernidade de António Botto estaria não tanto no seu lirismo confessional, nem sequer naquela consciência, quanto no frontal confronto com ela, na sua racionalização e na sua expressão desencantada e crua, residindo todos os conflitos e todas as tensões na contemplação plástica do corpo: entre a inocência e a amargura, entre o moralismo e a moralidade, nessa contemplação o próprio tempo ganha a dimensão perversa do «sonho que anda a ficar em saudade» ( «Não queiras saber quem  ele é», in Ciúme»). Uma Valorização ética do belo formal» (cf. J. Régio, op. cit) surge como a única resolução possível para uma atitude emocional que, sendo a de um persistente naturalismo, é também sistematicamente dilacerada pelo seu próprio cepticismo. E, como nota ainda J. Régio, é aí que a ironia surge em António Botto às vezes como uma espécie de último recurso, «a fazer o trágico suportar os seus conflitos»: porque «tão forte é o instinto vital, que a vida se contenta muitas vezes com aparências».

 

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses
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