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AL BERTO

 

[N. Coimbra, 11-1-1948 — m. Lisboa, 13-6-1997]

 

 

Poeta. De seu nome todo, Alberto Raposo Pidwell Tavares, Al Berto foi um meteoro na poesia portuguesa do século XX. Nasceu acidentalmente em Coimbra, no dia 11 de Janeiro de 1948, onde o pai então estudava Medicina, mas foi em Sines, na quinta da avó, que viveu quase toda a infância e parte da adolescência (1949-67). Em Lisboa frequentaria a Escola António Arroio e o curso de formação artística da Sociedade Nacional de Belas Artes. No dia 14 de Abril de 1967, com dezanove anos, expatria-se voluntariamente, fixando-se em Bruxelas, onde se matricula no curso de pintura monumental da École Nationale Supérieure d'Architecture et des Arts Visuels. Durante oito anos viajará pela Sardenha, Córsega, Sicília, Grécia, Málaga, Catalunha e Amesterdão, provavelmente ao sabor do imaginário maudit de Rimbaud e Genet. Entretanto, nos intervalos de nomadismo, funda com alguns amigos o Montfaucon Research Center (1968); publica um livro de desenhos - Projects 69 - e expõe na galeria Fitzroy, de Bruxelas (1970); desiste da pintura (1971); trabalha como animador cultural no Centre Culturel du Hainaut, dirigindo episodicamente, em Vaux, uma secção infantil de artes plásticas (1972-73); escreve em francês Esquisse pour un Portrait d'Alain Petit-Pieds et Henriette Rock (inédito) e assume-se como autor de textos literários. Continuará a escrever em francês e a colaborar com publicações marginais. Até que em 17 de Novembro de 1975 regressa definitivamente a Portugal. É nesse ano que escreve o primeiro livro em português, À Procura do Vento num Jardim d'Agosto, cuja 1ª versão foi publicada em 1977 (e depois retirada do mercado; a versão refundida, recuperada no volume de obra completa, é posterior). Depois do regresso ao nosso país, Al Berto torna-se notado por fundar, em Sines, uma pequena editora radical, "A. Pidwell, Editor", de existência breve (1976-80) e perfil de contracultura, onde publicará os dois primeiros livros. Desses livros, em particular de Meu Fruto de Morder Todas as Horas (1980), dirá Joaquim Manuel Magalhães que é "um ataque por todas as vias - droga, sexo, loucura, jogo, magia. Um fluxo de revelação [...] A intensidade justifica esmagadoramente um certo atraso de importação processual e algumas fraquezas vocabulares." Al Berto não corta as pontes com Bruxelas e publica três originais - Salive, Hôtel de la Gare, Le Plus Grand Calligraphe e Le Navigateur du Soleil Incandescent - na revista Luna-Park (1977-79). Entretanto, em Sines, colabora (1981-86) com a autarquia da vila, dirigindo o Centro Cultural Emmérico Nunes. Em 1987 recebe o prémio do PEN Clube a pretexto da reunião da sua poesia e fragmentos do diário num único volume, O Medo. Os anos seguintes foram de jubilação mediática, bolsas de criação literária (1990 e 1997), entrevistas nos jornais e na televisão, congressos e seminários, leituras públicas, uma comenda, interesse crescente por parte das juventudes universitárias. Além de poesia, publicou também duas narrativas em prosa: Lunário (1988), espécie de cenografia hippie do exílio e da transgressão, uma feérie de putos, copos, charros, chutos e travestis, que corrobora a tese de que a metáfora é o princípio omnipresente da linguagem; e O Anjo Mudo (1993), selecção de prosas avulsas. Tributário das convenções pós-beatnick, herdeiro de Burroughs, a sua escrita sofreu uma acentuada inflexão a partir do momento em que publicou Uma Existência de Papel (1985), mudança de registo que a última colectânea - Horto de Incêndio, 1997 - inequivocamente fixou. Paradigma da deriva homossexual, a sua poesia acedeu nos anos 90 ao reconhecimento canónico. Morreu vítima de cancro, no dia 13 de Junho de 1997. Meses antes, no Coliseu dos Recreios (Lisboa), tinha anunciado esse dia: "caminho com os braços levantados, e com a ponta dos dedos acendo o firmamento da alma/ espero que o vento passe... escuro, lento, então, entrarei nele, cintilante, leve... e desapareço." Colaborou com as revistas Ler e Colóquio-Letras, foi um dos organizadores da antologia de poesia Sião (1987) e encontra-se traduzido em França, Espanha e Itália.

 

in Centro de Documentação de Autores Portugueses, 11/2006

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