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SÁ DE MIRANDA

 

[n. Coimbra 1487? - 1558?]

 

 

Francisco Sá de Miranda

Escritor português, natural de Coimbra. De família fidalga, estudou nos Estudos Gerais de Alfama, onde terá eventualmente sido professor. A prová-lo está o título de Doutor com que surge designado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516), onde colaborou com poesias em português e em castelhano, como era habitual nos escritores da época, e segundo os moldes tradicionais. Assim se comprova igualmente que frequentou os meios palacianos e a corte, onde conheceu Bernardim Ribeiro.

Em 1521, fez uma viagem a Itália, onde permaneceu até 1526. Contactou então com o Renascimento italiano e os novos cânones literários. Depois do seu regresso a Portugal, retirou-se para o Minho, onde se casou, em 1530. Afastou-se assim da corte, embora mantivesse convívio epistolar com grandes personalidades da época, entre as quais o próprio rei D. João III. Doente e atingido pelas mortes sucessivas de familiares - do filho primogénito em 1553, da mulher em 1555 - e de personalidades a quem estava ligado por fortes laços afectivos e culturais, como o príncipe D. João, falecido em 1554, e o Infante D. Luís, em 1557, pensa-se que terá morrido em 1558, pois de Maio desse ano data a última referência à sua vida.

Como escritor, Sá de Miranda teve uma acção fundamental na introdução, em Portugal, dos géneros poéticos e do ideário do Renascimento. Após a viagem a Itália, o escritor passou a escrever, embora não exclusivamente, segundo os novos modelos. Sá de Miranda foi o introdutor, na literatura portuguesa, do soneto, do terceto, da oitava, de subgéneros poéticos como a canção, a carta, a écloga e a elegia, do metro decassilábico e da comédia clássica.

Outro aspecto importante da sua obra, que se prende sobretudo com o seu ideário, é a intenção moralizante, expressa sobretudo nas Cartas (1626), na Écloga Basto e em alguns sonetos. Criticando a vida sua contemporânea, Sá de Miranda revelou-se nostálgico do Portugal antigo, anterior à decadência dos costumes que o poeta detectava na vida cortesã e citadina (opondo-lhe a autenticidade e liberdade da vida rústica, tema típico já da antiguidade clássica, particularmente na concepção horaciana da aurea mediocritas, como na carta que escreveu ao seu amigo António Pereira, senhor de Basto, quando se retirou da corte para o campo). A mesma decadência estava, para Sá de Miranda, subjacente ao espírito que animava a expansão ultramarina portuguesa: a ambição do comércio, a guerra que afasta o homem da natureza, a corrupção da corte (veja-se a Carta a seu irmão Mem de Sá). É também nas Cartas que aborda tópicos característicos da literatura renascentista: o desdém pela vulgaridade (Carta a El-Rei D. João III), a superioridade do culto das letras sobre o das armas (Carta a João Roiz de Sá Meneses), a necessidade de renovação pelo estudo dos modelos estrangeiros (Carta a João Roiz de Sá Meneses) e até o incitamento à composição de um poema heróico de assunto português (Carta a El-Rei D. João III).

Sá de Miranda concebeu as primeiras comédias clássicas portuguesas (Estrangeiros e Vilhalpandos), cuja recepção pelo público, habituado aos autos (de Gil Vicente sobretudo), não foi das melhores. Se os aspectos criticados por Sá de Miranda e a sua intenção moralizadora o aproximam muito de Gil Vicente, o escritor afasta-se deste último pelas formas e o tom em que vaza as suas críticas.

Sá de Miranda deixou uma importante obra epistolográfica e uma série de éclogas, entre outros textos. A sua obra foi publicada postumamente, em 1595. Influenciou decisivamente escritores seus contemporâneos e posteriores, como António Ferreira, Diogo Bernardes, Pero Andrade de Caminha, Luís de Camões, D. Francisco Manuel de Melo ou ainda, mais recentemente, Jorge de Sena, Gastão Cruz e Ruy Belo, entre outros, manifestando alguns textos destes autores nítida intertextualidade com textos mirandinos, sobretudo com o tão conhecido soneto «O Sol é grande, caem co'a calma as aves».

 

in História Universal da Literatura Portuguesa, http://www.universal.pt

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