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LUÍS VAZ DE CAMÕES

 

[N. Lisboa?. 1524? — m. Lisboa, 10 de Junho de 1580]

 

 

LUÍS VAZ DE CAMÕES

Poeta épico e lírico, considerado o maior poeta de língua portuguesa de todos os tempos, a sua biografia é ainda hoje dificílima de tratar, dada a escassez de elementos exactos que sobre ele possuímos. Muitas das lacunas existentes têm sido preenchidas por conjecturas e deduções tiradas da leitura da sua obra, critério este extremamente falível, pois a produção artística de um escritor obedece a ditames subjectivos e estéticos, que não têm necessariamente uma relação directa ou cronológica com as vicissitudes da sua própria vida. A primeira biografia do poeta só aparece trinta e três anos depois da sua morte, inserta por Pedro de Mariz na edição d'Os Lusíadas (Lisboa, Pedro Crasbcek, 1613), onde vem acompanhada dos comentários de Manuel Correia, já então falecido, que diz ter sido amigo de Camões. A brevidade da nota que Pedro de Mariz  junta a esta edição, preparada desde os fins da década de 1590 aos primeiros anos do século XVII, mostra o pouco que por essa altura já se sabia acerca do poeta.

É neste domínio de incertezas que se aponta a cidade de Lisboa como o lugar mais provável do seu nascimento, em 1524 ou 1525, havendo seis outras localidades que lhe disputam a honra. Coimbra é uma delas. Supõe-se que aí tenha  estudado, embora não haja qualquer registo comprovativo de que tenha frequentado a Universidade. Filho de Simão Vaz e de Ana de Sá, como aparece nos documentos oficiais, ou Ana de Sá de Macedo, como ela também usava, Luís de Camões teria ido para Coimbra, onde havia um D. Bento, prior do Mosteiro de Santa Cruz e cancelário do da Universidade, seu tio, que lhe poderia ter dirigido, a educação. Camões pertence a uma aristocracia empobrecida, que procura no serviço das armas um modo de vida. Crê-se, assim, que, na mocidade, tenha estado em Ceuta. Severim de Faria (Discursos Vários Políticos, Évora, 1624), servindo-se de ecos biográficos encontrados na poesia de Camões, infere que ele esteve em África. E Aubrey Bell indica como datas prováveis: 1547-1548 para a partida e 1549 para o regresso a Lisboa. Teria sido em África que um pelouro lhe vazou um dos olhos nalgum recontro com os Mouros. De certeza sabe-se que a deformidade ocorreu antes da sua partida para a índia, pois a ela se refere numa carta que de lá escreveu como sendo facto conhecido. Em Lisboa leva, ao que parece, uma vida de estúrdia, tendo sido preso no Tronco da cidade por haver assaltado, numa briga, com outros companheiros seus, um servidor do paço. É perdoado por D. João III em 1553. como o atesta um documento que sugere a sua ida para a índia.

Do que faz no Oriente durante dezassete anos nada está documentado. Parece que participou (Novembro de 1553) numa expedição à costa do Malabar e esteve, por algum tempo, no cabo Félix, ou Guardafui, incorporado, ao que se crê, no cruzeiro ao estreito de Meca, entre Fevereiro e Outubro de 1555, feito pela armada de Manuel de Vasconcelos. É depois destas duas expedições que se situa o seu período na China (Macau). Em data que é impossível precisar, Camões naufragou nas costas do Camboja, ou actual Vietname, salvando das águas o manuscrito d' Os Lusíadas. como ele próprio declara (X, 128). Ao cabo de três anos de serviço militar, provavelmente em 1556, Camões foi licenciado, tendo depois aceitado, tanto quanto é possível julgar, o desempenho de funções públicas. À roda de 1568, decerto em busca de melhor sorte, vem para Moçambique, onde Diogo do Couto o encontra, vivendo na maior indigência (Década IX, cap. 20, Lisboa, 1786). O poeta passava então o tempo a aperfeiçoar Os Lusíadas e trabalhava numa obra intitulada Parnaso de Luís de Camões, que lhe furtaram. Couto e os amigos do poeta, de escala cm Moçambique, quotizam-se, pagam-lhe as dívidas e a viagem, e com ele seguem para o Reino, arribando ao porto de Cascais na Primavera de 1570 (Couto, Década VIII, cap. 28, Lisboa,  1786).

A 24 de Setembro de 1571, Camões obteve de D. Sebastião o alvará que lhe permite imprimir Os Lusíadas por um período de dez anos. Em 1572 sai a obra, em Lisboa, em casa do impressor António Gonçalves. E, em 28 de Julho do mesmo ano, D. Sebastião concede ao poeta uma tença anual de 15.000 réis, a pagamento desde 12 de Março, pelos serviços que este lhe havia prestado na índia, e não apenas para o compensar pela publicação d' Os Lusíadas. Esta tença foi paga irregularmente, mas sempre na sua totalidade, dela beneficiando, por ordem de Filipe II de Espanha, a mãe do poeta, que lhe sobreviveu. É graças a esta documentação que sabemos que a morte de Camões ocorreu em Lisboa, a 10 de Junho de 1580.

O valor da tença tem sido objecto de controvérsia entre os biógrafos do poeta. Ela era, efectivamente, inferior a muitas outras que o poder régio concedeu na altura a servidores seus. Segundo o testemunho de Diogo do Couto, seu contemporâneo e amigo, «em Portugal morreo este excellente poeta em pura pobreza» (Década VIII,  liv. I, Cap. 28, Lisboa, 1673). Tudo indica que a tença era insuficiente e inadequada ao serviço que o poeta prestara à pátria, ao dar-lhe a obra que se tornaria no poema nacional.

Em vida, além d' Os Lusíadas. Camões publicou apenas três composições. A primeira é uma ode laudatória, escrita na índia e dedicada a Garcia de Orta («Aquele único exemplo»), que aparece nos Colóquios dos Simples e Drogas (Goa, 1563). As outras duas peças - a elegia «Depois que Magalhães teve tecida» e o soneto «Vós ninfas da gangética espessura» - saíram na História da Província de Santa Cruz (Lisboa, 1576), de Pêro de Magalhães de Gândavo.

Até 1685, data em que a segunda biografia de Camões, de Faria e Sousa, veio a lume, incluída apenas nalguns exemplares das Rimas Várias (Lisboa, 2 tomos), ignorou-se a existência do que ele chamou outra edição d' Os Lusíadas, saída no mesmo ano de 1572. Faria e Sousa notou a diferença de portadas. Na que era então conhecida, o pelicano está voltado para a esquerda do leitor; na que ele encontrara, o pelicano está voltado para a direita. Faria e Sousa entendeu que a edição princeps era a segunda, por ser ela a mais imperfeita, no que foi seguido pelo morgado   do de Mateus em 1817. Modernamente, muitos camonologistas, na esteira de Costa Pimpão, aceitam que a verdadeira edição princeps é a que apresenta o pelicano voltado à esquerda. Em 1980, B. Xavier Coutinho chamou a atenção para uma terceira edição, saída em 1572, ainda que incompleta, por não dispor do frontispício, nem do privilégio de impressão, que teria o pelicano voltado para a direita, conforme se depreende do sétimo verso da primeira oitava, na qual se notam muitas diferenças, quando comparada com as outras duas.

O problema da edição princeps continua e continuará ainda por resolver, enquanto não se examinar a primeira edição d' Os Lusíadas, como já sugeriu Jorge de Sena, à luz do critério que adoptou Charlton Hinman para o first folio das obras completas de Shakespeare. A colação de dezenas de exemplares feita por Hinman revelou inúmeras discrepâncias entre elas. Essas discrepâncias não provêm de sucessivas reimpressões da obra, mas, sim, do modo casual em que cada compositor compunha, imprimia e corrigia as diversas folhas que formavam o livro completo, independentemente da fase de revisão a que pertencessem. Era este o modo de composição e impressão nos séculos XVI e XVII, como o confirmam plenamente investigações similares que, no domínio da textologia, se têm feito para outras obras editadas naquele período.
A obra lírica de Camões apresenta igualmente complexos problemas editoriais, já que o Parnaso de Luís de Camões, cm que ele trabalhava, lhe foi roubado e as edições que dele conhecemos são todas edições póstumas. As Rimas (Lisboa, 1595) são a primeira edição da lírica, feita a partir de cancioneiros manuscritos, que, não obstante o cuidado de Fernão Rodrigues Lobo Soropita, seu organizador anónimo, contém imperfeições graves e se encontra incompleta. Dela saiu uma segunda edição (Lisboa, 1598) em que subsistem erros. O cânone da lírica continua ainda por estabelecer, apesar do magnífico labor realizado pela crítica contemporânea. O critério actual para lograr esse objectivo é aquele que, no fim do século XIX, W. Storck e D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos haviam preconizado: o estudo dos cancioneiros manuscritos já conhecidos e a procura de outros, porventura existentes, para determinar a autoria das composições e fixar uma norma editorial fidedigna. Ora. este trabalho não está concluído E, na situação provisória em que se encontram as edições camonianas, a edição das Rimas (Coimbra, 1973), preparada por A. J. da Costa Pimpão, é a que nos oferece mais segurança

Das edições póstumas, o teatro de Camões foi a primeira obra a aparecer, incluído no volume Primeira Parte dos Autos e Comédias Portuguesas (Lisboa, 1587), onde a maior parte cabe a António Prestes. Também aqui os problemas editoriais são dedicados. Foi um certo Afonso Lopes, moço da capela real, que viu no projecto um meio de auferir alguns cobres, que organizou a edição. Os dois autos-comédias. Anfitriões e Filodemo, figuram na colectânea como da autoria do poeta, nada se sabendo, porém, do texto que lhes serviu de base. Que a censura inquisitorial exerceu cuidadosa vigilância não há hoje dúvida, porque no Cancioneiro de Luís Franco Correia, 1557-1589, em manuscrito, se encontra uma versão do Auto de Filodemo (fol. 269r-286v), que é muito mais ousada na crítica institucional e dos costumes do que a do texto publicado. De acordo com a informação exarada no Cancioneiro, pode inferir-se que o auto foi levado à cena em Goa, por altura dos festejos que, em 1555, assinalaram a investidura de Francisco Barreto no largo de governador, cujas funções desempenhou sem interrupção até 1558.
A epopeia camoniana, baseada literalmente na viagem de Vasco da Gama à Índia (1497-1498), é um poema de grande complexidade estética, onde a crítica moderna tem visto não apenas a história do povo lusíada e da aventura humana, empenhada na devassa da natureza, mas a jornada arquetípica de uma alma, que se descobre individualmente e busca na memória colectiva a efectividade de valores, posta à prova pela exigência dos tempos. Os Lusíadas passam a ser encarados como uma obra plurissignificante. E a voz do poeta, que na epopeia se faz ouvir, ganha novas dimensões na lírica, onde a torturante exploração da subjectividade, do amor e do conhecimento atinge a maior altura, fazendo de Camões indiscutivelmente um autor de estatura universal.

 

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses
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