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GARCIA DE RESENDE

 

[N. Évora, c. 1470 — m. Évora, 1536]

 

 

Poeta e historiógrafo, músico e cantor, era um homem de grande afabilidade de trato, que o tornava benquisto de todos que o conheciam. Moço de escrivaninha, escrivão da puridade de D. João II, foi também valido de D. Manuel, que lhe confiou a delicada missão de acompanhar, como secretário, a embaixada que o rei enviou ao papa Leão X. Homem do paço e conhecedor dos divertimentos cortesãos, teve ele a iniciativa de organizar, seguindo o exemplo de Hernández del Castillo, o Cancioneiro Geral (1516), que, para se distinguir do que, sob o mesmo título, publicou o seu predecessor (Valência, 1511), é também designado como Cancioneiro de Resende.

Esta é uma vasta compilação de toda a produção poética do tempo, tendo havido por parte de Resende a preocupação da quantidade na recolha. A sua arrumação é um pouco desordenada, constituída em torno do célebre debate do «Cuidar e Suspirar». O volume compreende composições de perto de trezentos autores que Garcia de Resende distribuiu ora por autores, ora por assuntos, ora um pouco ao acaso. O «Processo de Vasco Abul», assim como elogios e chistes, que visavam determinados personagens, constituem uma secção neste florilégio. Mas a riqueza e variedade dos temas versejados, ainda que alguns deles sejam meras frivolidades e outros assuntos de natureza escatológica, dão-nos um excelente quadro da época e da mentalidade do tempo.

No domínio da historiografia, redigiu Resende Vida e Feitos de D. João II (1545), onde não se limitou a seguir o manuscrito de Rui de Pina, mas esboçou um quadro colorido das relações humanas, incluindo o dito anedótico que, às vezes, as ilumina. Consegue, assim, dar-nos o pitoresco da vida quotidiana. Em verso deixou-nos ainda a Miscelânia e Variedade de Histórias (1554), obra irónica e divertida dos acontecimentos do seu tempo - é um texto precursor das epopeias seiscentistas, como o são as Trovas à Morte de D. Inês de Castro, a primeira obra literária sobre o tema, muito antes de António Ferreira e de Camões o terem tratado.

 

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses
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