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FRANCISCO MANUEL DE MELO

 

[n. Lisboa, 1608 – m. Lisboa, 1666]

 

 

Ilustre poeta, historiador, militar e diplomata teve uma existência acidentada. Aos dez anos é nomeado fidalgo escudeiro. Frequenta o Colégio de Santo Antão, em Lisboa, e manifesta, desde muito novo, excepcionais dotes literários. Em 1625 assenta praça e, no ano seguinte, visita Madrid. Em 1635 é armado fidalgo cavaleiro e serve no exército de Filipe IV de Espanha, tendo participado nas campanhas contra a Catalunha, que se havia revoltado contra o poder central.

D. Francisco Manuel tinha aceitado a existência da monarquia dual e não via nos seus actos e no seu serviço a Filipe de Espanha e Portugal qualquer contradição com o seu patriotismo, sendo um escritor bilingue. Com o advento da Restauração, em 1640, D. Francisco Manuel adere à causa de D. João IV. A sua atitude, no entanto, levanta suspeitas de um lado e doutro. Os portugueses desconfiam da sua lealdade por ter servido no exército espanhol, os espanhóis desconfiam dele por ser português. Conheceu a prisão tanto em Espanha como em Portugal. Em 1644, quando se encontrava ao serviço do exército português, é acusado de conivência no assassínio de Francisco Cardoso e condenado a degredo perpétuo em África.
A condenação de D. Francisco Manuel tem intrigado profundamente os seus biógrafos pela inconsistência da acusação. Procuraram-se, assim, outras razões. Aventaram alguns que teria havido um despique amoroso entre o escritor e D. João IV por causa de uma dama e que teria sido este o motivo da prisão. Sugeriram outros que ele teria propensões judaizantes e assim se justificariam as perseguições de que tinha sido vítima. Todas estas hipóteses caíram por terra por falta de prova. Fica apenas de pé a desconfiança que D. João IV e os seus conselheiros tinham do escritor, qualquer pretexto servindo para o incriminar e submetê-lo ao cativeiro. De todas estas hipóteses, é a última a que, de momento, parece ter alguma validade.

D. Francisco Manuel moveu poderosas influências e, se não conseguiu a desejada libertação, logrou, pelo menos, não ir para África. De Novembro de 1644 até à Primavera de 1650 esteve preso na Torre de Belém, na Torre Velha e no Castelo de S. Jorge. Em 1650 foi-lhe mudada a pena do degredo, que deveria ser cumprida no Brasil. Em 1652 estava em liberdade condicionada. Mas, em 1655, segue para o Brasil, onde cumprirá parte da sentença até princípios de 1658, data da morte de D. João IV.

D. Francisco Manuel regressa a Portugal, é finalmente reabilitado e, a partir de 1662, exerce actividade diplomática em Inglaterra, França e Itália. Volta ao Reino em 1665. Em 1666 é escolhido como deputado da Junta dos Três Estados, vindo a falecer no dia 13 de Outubro desse mesmo ano.

A obra de D. Francisco Manuel de Melo, que soube manter na adversidade uma admirável equanimidade e um estoicismo industrioso, reflecte a grande variedade dos seus interesses intelectuais. Em castelhano redigiu a Historia de los movimientos, separación y guerra de Cataluña, dedicada ao papa Inocêncio X (Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1645). Como D. Francisco Manuel se encontrava preso, o livro veio a lume com o nome do editor e sob o pseudónimo de Clemente Libertino. O lugar da publicação é dado como S. Vicente, nome da torre onde o autor se encontrava enclausurado na altura. Em castelhano publicou ainda as Obras Morales (partes I e II), Roma, 1664. D. Francisco Manuel alternou a composição das suas Epanáforas de Vária História Portuguesa (Lisboa, 1660) com a redacção dos Apólogos Dialogais, postumamente publicados (Lisboa, 1721). Trabalhou nestes intermitentemente de 1654 a 1657 e nas Epanáforas de 1649 a 1659. As Epanáforas, relações ou narrativas de acontecimentos, são cinco, constituindo um género muito em voga no tempo. De todas elas, a Epanáfora Amorosa, onde se conta a história de dois amantes ingleses (Roberto Machin e Ana de Arfet), que estariam na origem do descobrimento da Madeira, merece um lugar à parte, porque é, na verdade, uma novela sentimental de muito interesse, tendo sido traduzida para francês e inglês. O valor literário de D. Francisco Manuel nem sempre tem sido devidamente apreciado pelo leitor médio, que dele só conhece a Carta de Guia de Casados e o Auto do Fidalgo Aprendiz, que saiu juntamente com as Obras Métricas (Lião, 1665), onde se reúne toda a sua produção poética. A Carta e o Auto são escritos menores, ainda que muito popularizados. D. Francisco Manuel é um escritor muito fino e subtil, cuja sensibilidade artística se exprime admiravelmente dentro do espírito e das formas do barroco. Na sua poesia trata com grande penetração psicológica os temas do desengano e da fugacidade das coisas, com um cosmopolitismo aristocrático e uma têmpera de ânimo que conferem um cunho muito pessoal às suas meditações. Notáveis pelo estilo e pelo ideário são ainda as suas Cartas Familiares (Roma, 1664), infelizmente seleccionadas de modo que nelas não se encontre qualquer indiscrição ou indício revelador dos infortúnios sofridos pelo seu autor.

Espírito conservador e aristocrático, D. Francisco Manuel é sensível às mudanças sociais de um tempo que reflecte erosões de grandeza e as desilusões da vida humana. A sua obra é vasta e uma parte dela encontra-se inédita, não estando no conjunto ainda devidamente estudada.


 

 

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses
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