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ALMEIDA GARRETT

 

[n. Porto, 4-2-1799 — m. Lisboa, 9-12-1854]

 

 

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto, em 4 de Fevereiro de 1799 e morreu em Lisboa, a 9 de Dezembro de 1854.


«Filho de um funcionário superior das alfândegas, oriundo dos Açores, de seu nome António Bernardo da Silva, e de mãe descendente de uma abastada família de comerciantes do Minho, o autor irá mais tarde buscar o apelido irlandês, Garrett, a uma avó paterna, em tentativa um tanto provinciana de se aristocratizar por via de um nome «estrangeiro».

Na sua infância sofreu a influência, sobretudo, de duas criadas, Brígida e Rosa de Lima, esta última mulata, que lhe contavam histórias populares, fantásticas, narrativas de além-túmulo, e também lhe ensinavam modinhas correntes entre a gente do povo. É aqui que arrancará o seu gosto pela tradição e folclore que muito lhe hão-de influenciar a maneira e o fundo e de que há-de haver indícios na criação de algumas personagens da sua vasta galena.

Por altura das invasões francesas (1809), a família resolve, cautelosamente ir refugiar-se na ilha Terceira, onde João Baptista beneficiará de uma sólida educação clássica, que lhe é ministrada por dois tios, João Carlos Leitão e D. Frei Alexandre da Sagrada Família, que viria a ser bispo de Angra do Heroísmo, a partir de 1812. Estes dois personagens, além do estudo dos clássicos, que nele promovem, incutem-lhe ideias conservadoras, que não tardará a abandonar, e levam-no a pensar a sério em abraçar a carreira eclesiástica. Põe de lado, todavia, esta ideia, por não se sentir com vocação para a vida ascética, e vai para Coimbra, onde, em 1816, se matricula na Universidade. aí sendo submetido à influência do sopro de liberalismo que por essa altura, agitava o país. Concluída a sua formatura em Direito, em 1820, vai para Lisboa, onde vem a ser colocado na Secretaria dos Negócios do Reino, casando-se pouco depois, com Luísa Mídosi, que tinha apenas quinze anos. Daqui em diante levará uma vida agitada, primeiro, em 1823, abandonando o lugar e emigrando para Inglaterra, após a Vila-Francada e o restabelecimento do absolutismo, regressando, depois, a Portugal, em 1826, com a outorgacão da Carta Constitucional por D. Pedro IV, para novo exílio, ainda na Inglaterra, em 1828, com a proclamação de D. Miguel, como rei absoluto. Durante o primeiro exílio passara da Inglaterra para França, onde se empregara numa casa bancária, como correspondente comercial (que será, também, cem anos mais tarde, a profissão errática de Fernando Pessoa).

Em 1832, com Herculano e outros, junta-se aos liberais que, do exílio, vão desembarcar no Mindelo, tomando parte no cerco do Porto. Parte para Paris em missão diplomática e é colocado, pouco depois, em Bruxelas, como cônsul. Aí, a par de uma vida mundana, que intensamente cultiva, dedica-se a um estudo empenhado da literatura germânica, aprofundando uma intimidade com o romantismo que antes iniciara nos períodos ingleses do seu exílio. Regressa à pátria em 1836, separa-se de Luísa Midosi, influencia, com os seus artigos políticos, a eclosão da revolução de Setembro, junta-se com Adelaide Deville, que lhe dá uma filha e morre em 1841.

Passos Manuel encarrega-o de organizar o Teatro Nacional: Garrett promove a construção do edifício, cria uma escola de arte dramática e fornece o repertório. Divide-se entre a vida política, a actividade sentimental e a criação literária. Em 1844, três anos após a morte de Adelaide Deville, conhece Rosa de Montufar, viscondessa da Luz, por quem se apaixona, a quem dirige cartas de exacerbado desejo e que lhe inspira alguns dos mais sentidos poemas de amor que foram escritos na nossa língua.

É nomeado visconde em 1851, ministro dos Negócios Estrangeiros em 1852. No ano seguinte demite-se destas funções, e vem a falecer em 9 de Dezembro de 1854. com cinquenta e cinco anos, «sem haver sofrido o pesar de atingir a decrepitude», como observa José Régio.

Se, no teatro, nos deu a nossa obra-prima trágica, Frei Luís de Sousa,  e na prosa narrativa, com as Viagem na  Minha  Terra,   uma das obras mais comunicativas,  mais frescas, mais inovadoras no campo da linguagem (com este livro Garrett revela-se, observa Jacinto do Prado Coelho, «o iniciador da prosa literária, moderna, em língua portuguesa»), com as Folhas Caídas, ele legou-nos «alguns dos mais ardentes ou pessoais versos de amor da nossa língua», como observou José Régio.

Se, como poeta, o Retrato de Vénus (1821) e a Lírica de João Mínimo (1829), bem como as tragédias Mérope (1820) e Catão (1821), estão ainda fortemente marcadas de arcadismo, os poemas Camões (1825) e D. Branca (1826), escritos após a experiência do primeiro exílio, que lhe trouxe o conhecimento das obras de Shakespeare, Byron e Walter Scott e o das paisagens góticas onde abundavam os castelos em ruínas, representam a introdução, entre nós, do vírus romântico. Todavia, escritores como, por exemplo, José Gomes Ferreira são de opinião que o verdadeiro romântico só se liberta, em Garrett, com a publicação das Folhas Caídas, publicadas em 1853, isto é, um ano antes do seu falecimento.

 

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses
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