Eu s perdi o verdadeiro amigo,
eu s hei-de viver nesta saudade
sabe Deus a tristeza com que o digo.

O meu Silveira era uma vontade,
um amor, um desejo e um querer,
ambas um corao e uma amizade.

No tenho j rezo de vos fazer,
meus castelos de vento sobre o mar.
Que cousa h i j no Gange para ver?

Que cousa nele h que desejar?
Foi-se daquesta vida o meu Silveira;
tudo o bom na outra se h-de achar.

Que espada nas batalhas foi primeira,
ou qual entre os imigos mais prezada,
ou qual se achou mais s na derradeira?

E ora de seus soldados ajudada
fora deles uma hora mais seguida,
fora deles melhor acompanhada.

Que aquela ilha deles to temida,
ele a tinha j em tal estreiteza
que durar no pudera ũa hora em vida.

Mas gentes que no tm de natureza
esforo, esprito, sangue e condio,
o seu natural mostrar fraqueza.

Deixam morrer seu prprio Capito,
deixam perder as foras que as sustm,
e tudo lhes consente o corao.

No tratam da glria deste bem,
deste viver na fama sempre e vida,
o que lhes dizem disto no o crem.

Quem a vitria viu mais conhecida
- a no se ver dos seus desamparado,
qual esteve -, mais certa ou mais subida?

Com que saber o porto foi tomado
gente de Barm, que o defendia?
Com que esforo foi tudo comeado?

Que temor nos imigos j se via,
que vitria to clara aquela estava?
Que cousa aquele esprito no faria?

Que receio j neles se enxergava,
que deram pelas vidas, se quisera,
aquele que tirar-lhas desejava?

Mas que ouro, que preo ento pudera
fazer tornar atrs tanta ousadia,
ou quem fora o que aquisto cometera?

Quem se atrevera a, quem ousaria
com os tesouros de Crasso acometer
a quem s a honra e fama pretendia?

Forado neste caso se h-de crer
que o corao lhe no dava lugar
a meios que naquisto podia ter.

Por onde quis por obra comear
aquela crua peleja receando,
concertos que a soem desviar.

A presteza da cousa est mostrando
a vontade que tinha e o desejo
de se ver j na ptria pelejando.

Aquela hora, momento, aquele ensejo
quantas vezes ali desejaria,
verem-no pelejar Ninfas do Tejo!

Quantas vezes por elas chamaria,
com que esforo seria esta lembrana?
Quantas vezes a alguma invocaria?

Com que graa e arte e confiana
se parte na praia dos primeiros,
quo longe de fazer atrs mudana!

Aquestes bons espritos verdadeiros,
de que no digo o tero do que calo
que desprezar faria dos frecheiros!

Que longe de poderem enfad-lo
aqueles insofrveis alaridos
daquela gente inqua de cavalo!

Rodeado de mortos e feridos,
que aquele forte brao derribava,
sendo os seus s naus j recolhidos,

deu a alma a quem a desejava,
com tanto gasto e contentamento
quanto de tal esforo se esperava.

Oh, bom desastre, alegre esquecimento!
Por vs o meu Silveira est na Glria;
por vs l lhe repousa o pensamento;

por vs eternamente na memria
correr a este caso seu louvor,
de que se pode fazer larga histria:
Quem a vida sacrificou ao Redentor.

 

 

Luís Vaz de Camões
[EU SÓ PERDI O VERDADEIRO AMIGO]
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