Às vezes quando a vida como tarda
E nem a dor tem força p’ra doer,
E a esperança não tem lume com que arda
P’ra fingir aquecer,

E sobre o que é vontade na nossa alma
Cai uma obscura sonolência fria
Que se pareceria com a calma
Se não fosse (a) agonia.

E em tudo quanto foi em nós intuito,
E nos tornou possível não descrer,
Subitamente fecha-se o circuito:
Cessa poder querer —

Então num lago morto que há na alma,
Cercado de rochedos altamente,
A que esperasse a hora morta e calma,
E a brisa vaga ausente,

Uma figura surge, que parece
Sereia, ninfa, e essa □ visão
Cai como o efeito na alma de uma prece
Sobre o ermo coração,
 
E qualquer coisa, que não é esperança,
Que não é sonho, e é mais uma memória
De quando nos contaram em criança
Aquela antiga história,
 
Embala, e a dor, como uma nuvem, leve
Passa, ou a névoa rasga e há mar ao fundo,
E a nau vai regressar do país da neve,
E há luar sobre o mundo.


19/20-5-1921

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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