Vós vedes esses lobos carniceiros,
Que em volta dos redis andam bramindo?
Que onde se espalha o sangue são primeiros,
E últimos onde o Amor está sorrindo?
Tremeis de medo ao vê-los? ou, rasteiros,
Da vista deles vos andais sumindo?
Ou, cheios de ódio, estais a invejá-los?
Pois, em verdade, que é melhor chorá-los!

Eles não vêem deste grande mundo
Mais que os tectos dourados de seus paços…
Vós tendes todo o céu largo e profundo
Por tecto, e por palácio esses espaços!
O que Deus dá a todos… o fecundo…
Que não se nega aos mais mirrados braços…
O brado que de um peito amado sai…
E o que do olhar das mães n’alma nos cai…

A herança é bela, miseráveis! vede…
Miseráveis! porquê? porque no estio
Só piedoso olhar vos mata a sede?
Porque, quando tremeis de fome e frio,
Deus só seio de amigo vos concede?
Só tendes a esperança, como rio,
Para banhar-vos no maior calor?
Eles têm tudo… só lhes falta o Amor!

Nem têm Inteligência! a que vem d’alma!
Esse grande entender da Grande Cousa!
Cacho nascido na mais alta palma!
Coroa de quem crê e de quem ousa!
Sangue de irmãos a sede lhes acalma…
Dão banquetes no mármore da lousa…
É saber isto? é isto Inteligência?
Não! que o Bem é o perfume dessa essência!

A cânfora… a balsâmica resina…
A essência que desfila sobre os Povos,
Na fronte deles, como unção divina…
Quando o tronco deitou rebentos novos,
E palpitou a ave pequenina
Por um leve rumor dentro em seus ovos,
Então caiu também da imensidade,
Sobre a fronte dos povos, a Verdade!

É Ela, que ressalta, como lume,
Do choque das ideias e das cousas!
Não há grilhões que a prendam… que os consume!
Nem campa… que ela estala as frias lousas!
Machado de aço fino, com o gume
A árvore decepou onde te pousas
Tu, negro mocho da Hipocrisia,
E tu, águia fatal da Tirania!

II

Derruba com seu pé tronos erguidos,
Com um sopro, no pó lança os castelos,
E aos vermes que na sombra vão sumidos
E a quem ela chama filhos belos!
Os cometas, que ao ar andam subidos,
Fez cair… e tomando uns alvos velos
Pálidos e trementes, a Verdade
Com eles construiu trono e cidade!

Nós vimos esse deus e a nossa boca,
Não sabendo quem é, chamou-lhe Ideia:
Num dia faz-se nada, e a si se apouca…
No outro o mundo envolveu na imensa teia!
Pareceu bem minguada e coisa pouca,
Quando com Cristo se assentou à ceia…
No outro dia chamava-se Martírio…
Alma depois… depois chamou-se Empíreo!

Vai indo e vai varrendo a casa imunda
Que se chama passado — e faz o novo
Da poeira, inda ontem infecunda,
E que já amanhã se chama Povo.
É ela quem destrói e quem inunda;
E, entre as ruínas, faz chocar um ovo
Onde se agita um feto, hoje inda escuro,
Mas que é aurora e luz… porque é Futuro!

É gosto ver os tronos abalados
Por essa férrea mão, e ver os cultos
Por terra, e entre os altares alastrados,
Ver sob eles no pó deuses sepultos!
Ver os nomes dos grandes apagados,
E as sombras dos heróis cheias de insultos…
Porque esse sopro que o incêndio atiça,
E essa mão e esse braço… é a Justiça!

A Justiça flameja como a espada
Do arcanjo invisível — resplandece
Como a chama dos fogos ateada,
Que, ao longe, nas montanhas aparece.
Vela à porta dos grandes assentada:
À ruína dos maus é que ela desce:
E tem por trono e sólio soberanos
As ossadas comidas dos tiranos!

Ninguém a vê chegar… mas, de repente,
Aparece — e mudou a face às cousas!
Encheu de prantos quem dormiu contente;
Dos felizes sentou-se sobre as lousas;
Do olhar do forte fez olhar tremente;
E a ti, ó miserável, que nem ousas
Do chão teus tristes olhos levantar,
Foi quem ela tomou para beijar!

Não são consolações que dê o acaso,
São leis misteriosas e divinas…
A providência oculta em cada caso…
Presente na ventura e nas ruínas…
O que se achou no fundo desse vaso
Que se libou na vida… as surdas minas
Por onde o incêndio lavra sem ser visto,
Chame-se embora Garibaldi ou Cristo!

III

Ó Justiça! eu sorrio quando encaro
Os semideuses desta terra ingrata,
Que cheios de vaidade e de descaro
Se julgam feitos de ouro e fina prata…
Sorrio ao ver como em seu trono avaro
Cuidam falar com voz de catarata,
E crêem ser na altura uns Sete-estrelos…
Que eu bem sei que Tu hás-de subvertê-los!

Os Tronos caem sem acharem eco,
E os deuses morrem sem fazer ruído;
É o Ceptro ramo que só fruto peco
Dará, e o Montante de aço buído
Não poda a vinha… deixa tudo seco!
Tudo isto morre e vai-se em pó sumido…
Tronos, tiaras, ceptros, potestade,
Que pesam na balança da Verdade?

Mas a ideia, que sai da nossa fronte;
E a dor, que irrompe e rasga o nosso peito;
Mas a água, que tem numa alma a fonte;
E o feto, que nasceu todo imperfeito;
E o ai de um triste em solitário monte;
E um pranto maternal em frio leito;
Eis quem pesa no prato da balança
Onde se mede o amor e a esperança!

Esperança! debalde não se sofre!
Ó vós que andais curvados, vede a altura
E dizei-nos se pode dar de chofre
No lodo quem nasceu da formosura?
E espalhar os brilhantes do seu cofre
Entre as urzes, e pobre e em noite escura
Ir curvado sem ver a coisa-bela
Quem nasceu para andar de estrela em estrela?

Caminhai para a estrema da alvorada
Que vos sorri de lá — não tenhais medo —
’Té que se desembrulhe esta meada…
E há-de desembrulhar-se, tarde ou cedo!
Miseráveis! segui na vossa estrada
De miséria; segui, com rosto ledo…
É a estrada real de um reino certo!
Vai na frente a coluna do deserto!

 


In Odes Modernas
Antero de Quental
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