Com teus lábios irreais de Noite e Calma
Beija o meu ser confuso de amargura,
Com teu óleo de Paz e de Doçura
Unge-me esta ânsia vã que não se acalma.

Quantas vezes o Tédio pôs a palma
Sobre a minha cerviz dobrada e obscura;
Quantas vezes a onda da loucura
Me roçou as franjas pela alma.

Corpo da parte espiritual de mim,
Do que em mim não é senso e mutação
E se concebe como sem ter fim,

Põe carinhosamente a tua mão
Na minha fronte, até que eu seja afim
À tua inconsciente imensidão.

 

27 - 6 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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