Abismo de ser muitos! Noite minha!
Encruzilhada do meu vasto ser!
Quem quero que seja eu? Quem, no entrever
Do que fui, treva anónima e mesquinha?

Como o último ‘standarte da rainha
Com quem o  império findo se perdeu,
Descem dos astros mudos do atro céu,
Poeira, as razões de quanto fui ou tinha.

Nos rumores da treva do que foi
Recuam na derrota a murmurar
As hostes sem □ e sem herói

Do meu destino feito a ignorar,
E, como à última rainha, dói
No meu peito um segredo por achar.

 

□ Espaço em branco deixado pelo autor


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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