Oh quem me dera mais ou menos
      Que a vida, qualquer cousa
Que tornasse os céus calmos mais serenos
E não deixasse a alma sequiosa
Nem nos fizesse os gozos tão pequenos.

      A oca angústia da vida
      O tédio de sentir-me
Um momento que cessa.
Meu pensamento que crer não duvida
      Em mistério e mim.

Sem cessar o olhar ansiado
Encontra sempre ao fundo um horizonte
Que é sempre mudo e sempre interrogado
E mora em casas de cidade ou monte
      E sempre o ignorado.

Sempre o cansado pensamento
Encontra, ao fundo
De cada vida e cada sentido
O horizonte interior, oco e profundo,
Do mistério de haver a alma e o mundo...

Sempre o esforço falece
Ante não perceber para que existe...
A alma nua estremece
No frio escuro de que o ser é triste
Quando percebe que não tem razão
Para gozar, pensar, querer ou não...

Sempre, sempre, sem fim
Um norte, um guia certo mas é oculto
E eu olho e □ dentro de mim
Vejo como que um vulto
Que misteriosamente não conheço
E sou eu... Ignorando-me estremeço...

Que intentos me conduzem
Para onde e porquê?
Nem faróis longe luzem
Que vida que os não percebe a alma os vê.

Quem me dera fruir
Num nexo, ainda que falso, à minha vida...
Não me sei possuir
Num conceito de esforço e de □ lida
Como uma estátua frágil a minha arte
Nas mãos da minha análise se parte…

27 - 9 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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