O triunfo, nos fortes, da ambição
      Sonhada a sós, sem gloria,
Já me dói no cansado coração
Qualquer que haja de ser a sua história.

Negado, e mero sonho, sempre ausente
      Da hora e do lugar,
Dói por ser em nada, incongruente
Com a ânsia da alma que o soeu sonhar;

Obtido, sempre alguma cousa há-de
      Faltar ao real, que houve
No sonho, e há-de haver sempre uma saudade
De um mal ou bem que aos deuses não aprouve;

Mas maior é a angústia de sonhar
      Antes de obter ou não obter
Melhor era não qu’rer, e não passar
Oculto, pelo sonho de viver.

Triunfando do abismo e negação
      Da vida plena ou nada,
Ter só a ânsia de não ter ambição
E □

19 - 1 - 1920

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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