Como os fumos dos casais
Nos campos esparsos além,
Que, só porque não são mais
Que esses fumos, fazem bem;

Assim qualquer singeleza
Da emoção sem pensamento
Contém em si a beleza
De ser só um sentimento.

Quem me dera que esta hora
Em que não sinto o que sinto,
Em que a alma que tenho ignora
O com que por fora minto,

Durasse a alma que tenho,
Nem de ser deixasse mais
Do que o longínquo desenho
Dos fumos que há nos casai.

 

20 - 9 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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