INTERLOCUTORES: DLIO, ALCIDO E GALSIO

DLIO

Agora, Alcido, enquanto o nosso gado
pasce diante ns, manso e seguro,
sentemo-nos aqui neste abrigado.

Logremos este sol sereno e puro,
que livre se nos d, antes que venha
a noite fria com seu manto escuro.

O rico com seu ouro l se avenha;
no se farta a cobia coa riqueza;
mais arde o fogo quando tem mais lenha.

Com pouco se contenta a Natureza.
Quem isto bem olhasse, certifico
que no fugisse tanto da pobreza.

O sol tambm me aquenta, como ao rico;
a fonte gua me d, frutos a terra;
com pouco mantimento farto fico.

Ah! que a m vaidade nos faz guerra!
Para que gasto tempo em mais palavras?
Os olhos da razo esta nos cerra.

Alcido, tens ovelhas e tens cabras,
de que tiras da l, tiras do leite;
e no te faltam campos em que labras.

Inda tu queres mais? Amigo, eu hei-te
de falar claro e sem lisonjerias,
no hajas medo tu que eu as afeite.

Tu cantavas Amor, Amor tangias;
falava a tua frauta, agora muda.
Que mal te mudou tanto em poucos dias?

ALCIDO

Muda-se a idade, Dlio; e, se se muda
com ela a condio, nada me espanto;
o gosto me ajudou, j no me ajuda.

Se j cantei Amor, se Amor no canto,
culpas do tempo so, que vai mudando
o meu cantar alegre em triste pranto.

O tempo, que to leve vai voando,
Dlio, no torna mais; e assi fugindo,
mil claros desenganos nos vai dando.

Pouco a pouco se veio descobrindo
o mal de uma esperana v e incerta,
que me deixou chorando, e foi-se rindo.

Quem nasce sem ventura ou quem acerta
de fazer fundamento em peito alheio,
de mil contas que faz nenhuma certa.

DLIO

Pois se isso entendes tu, donde te veio
sentir to de verdade as sem-razes;
no sendo de outra cousa o mundo cheio

ALCIDO

No queres tu que sintam coraes
obrigados com dor a sentimento,
vendo a razo vencida de afeies?

DLIO

Enfim, todas as cousas querem tento.
Encobre a dor, e guarda-te de extremos,
que sempre trazem arrependimento.

Ao nosso doce canto nos tornemos:
das nossas Ninfas, belas inimigas,
crueza e formosura celebremos.

ALCIDO

Como cantarei eu novas cantigas
em terra to estril, cheia de ira,
que nega flores e que nega espigas?

Pendurei num salgueiro a minha lira:
ouvi-la ao som do vento uma mgoa;
em lugar de tanger, geme e suspira.

A Amarlia pintei; pintada trago-a
aqui neste meu seio, e tambm chora.
Seus olhos me do fogo, os meus do-lhe gua.

Mas vejo vir Galsio.

DLIO
Venho embora.
Galsio, queres tu cantar comigo?

GALSIO

Eu nunca me roguei: menos agora.

DLIO

Cantaremos de Amor cruel imigo,
ou brando e amoroso, em razo pasto,
tirano e cego, e cego at consigo?

GALSIO

Cada qual cante do que for seu gosto:
quer mimos, quer rigores de Amor fero,
ou de olhos verdes cante ou de alvo rosto.

ALCIDO

Enquanto vs cantais, recolher quero
o gado, que so horas de ordenhar;
noite na malhada vos espero.

GALSIO

Isso no: hs-de ouvir para julgar
qual de ns melhor canta e melhor sente.

DLIO

Eu j no cantarei sem apostar.
Aposto o meu rafeiro, que Valente
se chama, e com razo; que o lobo afasta
se no cantar mais branda e docemente.

GALSIO

Um cervo manso aposto.

DLIO

Isso no basta:
pe mais um par de cabras.

GALSIO

Deus me guarde;
porque, Dlio, este gado da madrasta.

ALCIDO

Fazeis-me vs juiz? Quereis que aguarde?
Ora cantai sem preo e sem inveja;
e seja logo, porque j tarde.

DLIO

Liarda minha, branca mais que a neve,
e muito mais corada que a gr fina;
se inda Amor a vencer-te no se atreve,
que far quem de amor por ti se fina?
Eu morro, e tu meu mal julgas por leve?
No vs tu como j me desatina?
Ai triste, que me vem vales e montes,
regados de meus olhos feitos fontes!

GALSIO

Marfida, branca mais que o branco leite,
vermelha muito mais que a rosa pura,
assi descuido em ti nunca suspeite,
assi me trates inda com brandura!
Que a cabana, que a vida e alma enjeite
por ti, quando tu, mais que mrmore dura. . .
Testemunhas sero montes e vales,
a quem dou larga conta de meus males.

DLIO

Quando a minha Liarda desencolhe
os seus cabelos de ouro, longo, ondado,
o Sol, de pura inveja, se recolhe
corrido de se ver menos dourado.
Livre pastor no h, que bem os olhe,
sem se achar logo neles enlaado.
Ai, no soltes, Liarda, os teus cabelos,
pois tanto prendem quantos ousam v-los!

GALSIO

Os tristes coraes se tornam ledos,
ouvindo de Marfida o doce canto;
os furiosos ventos esto quedos;
no guia o claro Sol seu carro entanto.
Converte-se a dureza dos penedos
em brando amor; Amor desfaz-se em pranto,
vencido dessa voz, doce Marfida;
mas tu nunca de Amor foste vencida.

DLIO

O campo de verdura vejo pobre;
o cu chuvoso sempre, e turvo o rio;
da sua leda folha a terra cobre
o bosque, que foi j verde e sombrio.
Mas se Liarda o rosto seu descobre,
logo desaparece o tempo frio.
Consigo a Primavera traz Liarda.
Ai, quem a visse j! Ai, quanto tarda!

GALSIO

A triste Progne j desapareceu;
a toda flor o frio foi imigo;
a doce Filomela emudeceu,
rouca de lamentar seu mal antigo
Mas venha por aqui quem me venceu
com um s volver de olhos, que eu me obrigo
que as aves tornem logo a seus amores,
e os campos se matizem de mil flores.

DLIO

A viva chama, aquele vivo ardor
que brando sinto j pelo costume,
de noite d de si tal resplandor
que os pastores vm dele a tornar lume.
Pasmados ficam, vendo em mi de amor
o fogo que me queima e no consume.
E tu, por quem eu ardo noite e dia,
quando vs tal ardor, ficas mais fria.

GALSIO

Eu sempre choro e tanto j chorei,
vencido da gr dor que na alma tinha,
que mil vezes de lgrimas fartei
meu gado, quando a fonte a buscar vinha.
Chorando, as duras pedras abrandei;
mas nunca a ti, cruel imiga minha,
que, vendo que por ti me estilo em gua,
nenhuma mgoa tens de minha mgoa.

DLIO

Quando vires, Liarda, o nosso Lima
que l vai de meu choro acompanhado,
tornar com suas guas para cima;
de seu curso esquecido costumado;
ento embora julga, ento estima
que tenho noutra parte o meu cuidado.
Mas deixaro os rios de correr,
primeiro que deixe eu de te querer.

GALSIO

Estas serras, Marfida, por certeza
de minha firme f s quero dar-te
quando, com espantosa ligeireza,
daqui correr as vires a outra parte;
ento cuida que falta em mi firmeza,
que ento deixarei eu, meu bem, de amar-te.
Mas mudar-me daqui bem podem elas,
e eu no mudar de mi graas to belas.

ALCIDO

Se esta vontade minha no deseja
a vossos versos dar justos louvores,
hora nunca na vida alegre veja.
Aceitai meu desejo, meus pastores:
mais vos no pode dar quem traz o esprito
de todo entregue a danos, mgoas, dores.
Mas por que d de vs pblico grito
a leve Fama, como vedes, deixo
o vosso canto e o meu juzo escrito
no liso tronco deste verde freixo.
Dlio neste lugar doce cantou
com Galsio, que doce respondia;
um Liarda, Marfida outro louvou,
com inveja de qual melhor diria.
Alcido, que o seu canto bem notou,
por ver quem a vitria levaria,
como livre juiz, deu por sentena
que no havia entre eles diferena.

Luís Vaz de Camões
[AGORA ALCIDO ENQUANTO O NOSSO GADO]
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