No sono antes do sono,
No sonho sem sonhar,
Passam em abandono
Sombras, formas sem dono,
Que surgem a acabar.

É um mito do interlúdio
Que há entre a vida e a vida.
Meu mal sonhar ilude-o.
Minha dor esquecida
Não sabe quem a olvida.

E, assim, entre entre e entre,
Dos sonhos que vou tendo,
Como um japão excentre,
Abro a sorrir o ventre,
E morro, o ventre vendo.

30 - 8 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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