Poema após poema, íntimo, escrevia
Aquela grande obra do seu ser
Que nunca em tempo algum alguém leria
E ele via o universo a ler.

Era mais que poeta: era profeta,
E em seus versos errados e divinos
Toca a rebate o que nele era poeta,
Mas numa torre que não tinha sinos.

Viveu assim, feliz do que escreveu,
Morreu, deixando a obra como sobra
da alma que fora... Mas, meu Deus, e eu?
Eu que nem tenho a fé nem tenho a obra?

13 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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