ESTES CÃES SÃO FEROZES» devia 
estar escrito. Nada porém 
desvenda à luz o facto, 
o vau por onde escapar 
aos colmilhos das feras. 
Impunes, disfarçados, 
organizam a ofensa 
e a uma esquina, súbita, 
a mordedura colhe-te. 
Nada fizeste e és já 
poeira na aluvião. 

Alguns contravenenam, ganham 
o preço do resgate, musculam 
a cinza dos dedos mutilados. 

Deviam inverter as grades. Deviam 
estar abertos os caminhos. 
Deviam ser mantidos em curto-
circuito ali, entre os arames, 
rotulados, bem longe: « CÃES 
FEROZES: PERIGO!» 


In OS ARQUIVOS DO SILÊNCIO (1959-1961) , Portugália Editora, 1963
Egito Gonçalves
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