I

Meus olhos foram dar às alcovas dos rios.
Teu sorriso confiado aos sorrisos mais frios
Dirá da tua dor e do seu nexo morto...
Nada há a esperar da nau que deixa o porto
E cujo rasto fica entre água vagamente
Comovida o ondular enrolado e alvo entre
Cisnes de imaginar que a água a ondear acentua
Na alma que em só ver banha-se toda nua...

Mas os cisnes, os leões e todos quantos foram
Encontrar nos corcéis os ímpetos que moram
Entre arvoredos sacudidos e espreitados
Foram reis no passado entre jaspe e pecados.

Nyria, teu nome estranho, o teu sorriso Esfinge
No Egipto, teu poder como um sangue que tinge
O branco essencial das clâmides entregues,
As asas de sair da hora, antes que chegues,
Os barcos a atardar a sua vinda, vendo
Que chegar é partir de não chegar, vivendo
Só na sombra da água em reflexos tigrados
Pela ansiedade fluida onde estão os sagrados...

A flauta que comove as paisagens supostas
A este hora irrealiza as notas postas
Sobre as mesas do sonho em topázios de anéis...
O deus irreal que castigou os seus fiéis
Anuiu azular de novos céus sem fim
O mundo exterior virado para mim,
E conceder ao acaso alado dos violinos
O único prazer depois da dor dos sinos...

15-6-1915


II
 
Carícia vinda da Distância...
Fervor acontecido a medo...
Ópio de Cinzas e Segredo...
Pálio de sombras e fragrância...
Teu nome mora numa piscina
Entre os pátios do meu desejo.
Nenhuma hora tem ensejo
De me amar-te, frágil e fina...

Candelabro apagado a véus
De tule e púrpura em teu dia...
Saque das cidades... Fazia
Frio à sombra irreal de Deus...

Lírio-hálito... Salmo perdido
Entre o perfume dos arvoredos...
Rócio encontrado entre os segredos
Do rio do meu atraso ido..

Nexo ora das certezas finda...
Sacrário adverso às confissões...
Teus lábios cheios de perdões
São relvas em meu sonho ainda.

Nunca me deixes, ó interrupta
Em teu escarpado desaire
De dar a cor do teu donaire
À vida e à sua □ abrupta.

Nunca escarneças lampadários
Nos meus sítios, nem gozes dar-me
Mais □ que o alado carme
Que encrepe o ouro dos sacrários...

Relíquia exposta... Verso feito
Para o auge das litanias...
Repara minhas mãos são frias
E o meu coração imperfeito...

Não sei que caminho levaste
Desde quando sonhei achar-te
E houve outonos na minha arte
Estrelas no chão onde passaste...

O abismo anda comigo e cerca
Sempre os meus passos isolados...
Ah estende-me os teus braços dados
E que eu me encontre e que me perca

Cessaram os pavões ao longe
Seus gritos foram-se entre palmas...
Teu perfil acontece às almas
E o melhor amor é de monge...

Meu coração escuta-me. Oro
E abro portas para descrer...
Ah, vem, e a noite irá descer
Sobre mim como a dor que adoro...

Abro a janela aonde eu te vejo...
Acendo a luz em que te cismo.
Cerca-me sempre o grande abismo...
Todo eu sou um perdido ensejo...

Florirão amanhã as rosas...
As rosas chorarão por mim...
A tarde nunca terá fim
Salvo palavras cariciosas...

Essas tu m’as dirás, do poente.
Onde sempre te vejo a alma...
Cairá sobre mim a calma...
E a dor dormirá como um doente...
 
Por isso tece-me esplanadas
Que eu sonhe, com teus gestos brandos...
Andorinhas passam em bandos...
Todas as árias são cansadas...

Há século dezoito morto
No nosso feitio de sentir...
Deixa a tua janela abrir
Ao vago vento à tarde absorto...

De longe eu cismarei teu vulto
Quando a janela se entreabrir
Em tua casa, e o céu sorrir
O seu longínquo e alado indulto...

Não estarás aonde eu te vejo...
Não estarás em parte alguma...
Mas tocar-te-ei como uma espuma
Na praia em mim do teu desejo...

Acendo as estrelas. Desço
De um sonho sem □ alarde...
A minha alma esvai-se na tarde...
Sou aquele de que me esqueço...

E alada nota, num vago
Dobre às carícias começadas...
Teu nome será as espadas
Luzindo com beijo pressago...

Depois haverá as conquistas,
A guerra, os guerreiros e as lanças...
E afinal só as tuas tranças
No infinito que de mim distas.

Séquito abandonado... Tanque
Seco... Hora vazia... Em mim
Mande que a mágoa tenha fim
E a ferida da vida estanque.

11 - 7 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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