No porque de algum bem tenha esperana
vos escrevo meu mal em tal estado
que sei que em vs far pouca mudana.

Mas j perdido, triste e magoado,
para remdio tomo escrever dores;
esperar de vs outro escusado.

O que no faz Amor em meus amores,
o que lgrimas tristes no fizeram,
bem menos o faro causas menores.

Pois onde as mais 't agora se perderam,
percam-se estas palavras de meu ser,
que pouco me doem j, j me doeram.

Sempre deste meu mal tive suspeita;
no que de todo em todo me faltasse
ũa esperana v enfim desfeita.

Fazia-me o desejo que esperasse;
a razo de outra parte, que temesse
e de esperanas vs no confiasse;

que olhasse que por elas no perdesse
a doce liberdade, o riso, o canto,
de que depois em vo me arrependesse.

Amor, que tudo pode, pde tanto
que, para ver o mal em que me vejo,
me no deu olhos mais que para pranto.

No curei a razo, segui o desejo;
outras cousas segui, de qualidade,
que choro e calo, por no ser sobejo.

Pela vossa neguei minha vontade;
logo como vos vi, no mesmo ponto
vos entregou a vida a liberdade.

O que passou despois, no vo-lo conto.
De que serve contar cousas sobejas
a quem lhe soube dar um tal desconto?

Ah, esperanas minhas, j perdidas!
Agora, para mais ter que contar,
soube que fostes vs, fostes fingidas.

Em que posso ou que devo hoje esperar?
Onde acharei de novo outros enganos,
que possam desenganos enganar?

Mas vento cuidar enganar danos;
O triste, que nem na alma tem alento,
tem seu remdio s no fim dos anos!

J no espero ver contentamento;
perdi quanto esperei numa s hora,
e no perdi em muitas o tormento.

E sobre tantas perdas, inda agora,
que esperava de vos a vs queixar-me,
no mo consente Amor, que na alma mora.

Pe-se diante, a fim s de estorvar-me,
que vos ofenderei, mostrando aqui
que tanta f pagais com maltratar-me.

E ento este temor deixa-me assi,
alm de magoado, frio e mudo,
rependido de quanto escrevi.

Cousas de vosso gosto ainda cudo,
como se no cuidasse — o que no creio — ,
no perder isto, como perdi tudo.

Mas v-se o medo j, pois que j veio
o desengano, sem se ter sabida
que a certeza podia ter receio.

Agora no me d perder a vida,
nem a deve recear quem a despreza;
matai-me, se de mim sois ofendida.

Seno mate-me j minha tristeza,
que este s bem me fica, este me val',
se mo no estorvar vossa crueza.

Quem se no espantar, vendo-me tal
temer: que o triste fim, que me ordenastes,
mo negueis por remdio de meu mal?

Entre silvestres feras vos criastes,
pois dais por galardo do que esperava
cruezas desusadas do que usastes.

Quantas lgrimas triste derramava!
Quantos suspiros dava noite e dia
se vos no via, enquanto vos olhava!

Tremia diante vs, ausente ardia;
abrandava este mal ter para mim
que sentia meu fogo essa alma fria.

Mas muito diferente foi o fim
de tudo o que cuidava no comeo,
por onde de um mal noutro, a tantos vim.

Vida para tal vida no vos peo;
morte para tal morte, qual me mata,
me podeis dar, que bem vo-lo mereo.

Porque com a dor lngua se desata,
e com gritos vos chama, e com razo,
sem f, desamorvel, cruel, ingrata.

Por isso acabai j vossa teno.
Fartai, Senhora, j vossas cruezas
no sangue deste triste corao.

Acabai de acabar tantas tristezas
pois acabastes j vs esperanas,
acabem j tambm minhas firmezas.

Acabe a vida, acabaro lembranas.
Mas tudo est por vs to acabado,
como muitas em mim as confianas,
que tanto me trouxeram enganado.

Luís Vaz de Camões
[NÃO PORQUE DE ALGUM BEM TENHA ESPERANÇA]
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