Seja o que for que aconteça
Nunca acontece de todo.
Tira o lenço da cabeça
E põe-o de um outro modo.

A mágoa nunca deu vinha,
Nem deu vinho repisar...
Se tenho vida, ela é minha,
Não a tenho para a dar...

Mas se entesas bem o lenço
Sobre a cabeça a sorrir,
Já não sei bem o que penso,
Começo só a sentir.
 
Ai pontas do lenço vindas
Até onde eu quero ver...
Já te disse coisas lindas
E vais-te embora a esquecer.
10 - 10 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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