Eu caminhava, anónimo e distante
Do que via e ouvia,
Quando, sem eu esperar, surgiu diante
Dessa minha apatia

Uma criança a rir e a correr
E a olhar para mim;
E despertei do enigma do meu ser
Como que num jardim…

Foi como se uma flor se destacasse
Ao meu olhar casual
E do seu sonho súbito o acordasse
E o tornasse normal.

Flor de ser pequenina! Como tudo
Quanto estava pensando
Se me volvia nitidamente mudo
Só de sentir-me olhando.

Riu, e deu pulos e ainda riu mais
E outra vez me olhou
E fez, com um adeus, grandes sinais
Àquilo que não sou.

15 - 9 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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