Na sombra e no frio da noite os meus sonhos jazem.
Um frio maior cresce do abismo, e decresce.
Toca-me o coração de dentro a Mão que conhece.
As estrelas sobem. Por cima de mim se desfazem.
Ah de que serve o sonho? O que acontece
Não é o que nós queremos, mas o que os Deuses fazem.

O silêncio oscila. Na inércia da hora paira
Um murmúrio ansioso da sombra.

A minha vontade é um acto alheio, um gesto visível
A olhos para quem o mundo visível é o que nós não vemos.

De que braço é todo o meu ser um só gesto abstracto?
Que movimentos no ar são as minhas acções queridas?
Falta ao meu senso de mim um ajuste e um tacto.

Jaz no chão com meus sonhos a cinza de todas as vidas.

 

10 - 2 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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