Dispam-me o Oiro e o Luar,
Rasguem as minhas togas de astros
Quebrem os ónix e alabastros
Do meu não me querer igualar.

Que faço só na grande Praça
Que o meu orgulho rodeou —
Estátua, ascensão do que não sou,
Perfil prolixo de que ameaça?...

... E o sol... ah, o sol do ocaso,
Perturbação de fosco e Império —
A solidão dum ermitério
Na impaciência dum atraso...

O cavaleiro que partiu,
E não voltou nem deu notícias —
Tão belas foram as primícias,
Depois só luto o anel cingiu...

A grande festa anunciada
A galas e elmos principescos,
Apenas foi executada
A guinchos e esgares simiescos...

 

Ânsia de Rosa e braços nus,
Findou de enleios ou de enjoos...
— Que desbaratos os meus voos;
Ai, que espantalho a minha cruz...
 

 


Paris, Julho de 1915
Mário de Sá-Carneiro
« Voltar