acordava sem dar por isso no fio da geada
que delimita o sonho da madrugada

abria os olhos para a luz de Setembro no fim
encostava a cara aos embaciados vidros sentia
a chuva miúda diluir os passos de ontem pelas ruas
vestia-se lentamente com o vício da memória
e saía pela cidade para enfrentar mais uma noite

pintava a cara e as mãos como as putas
em Bousbir ou em Alexandria vagueava
no calor das ruas comprava nozes queijo fresco
pão algum mel
falava com os mercadores de tapetes
projectava viagens
sabendo que não abriria sequer a porta
a quem nos viesse visitar

à passagem regular dos comboios
o corpo estremecia no soalho
deixava pender a cabeça para fora da máscara
a pouco e pouco
relia o que escrevera no ácido da noite
vigiava-se
ouvia o falar misterioso e tenso dos nervos
por onde subia o desejo de me assassinar
esse terror silencioso
de quem sabe envelhecer sozinho
e do corpo nunca ter avistado alguma felicidade

 


In O Medo
Al Berto
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