Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
      Deixa haver a injustiça.
      Não odeies nem creias.

Não tens mais reino do que a própria mente.
Essa, em que és dono, grato o Fado e os Deuses,
      Governa, até à fronteira,
      Onde mora a vontade.
     
Aí, ao menos, só por inimigos
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
      Não há a dupla derrota
      Da derrota e vileza.

Assim penso, e esta mórbida justiça
Com que queremos intervir nas coisas,
      Expilo, como um servo
      Infiel da ampla mente.

Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
      Onde me a mente e corpo
      Não são mais do que coisas?

Basta-me que me baste, e o resto mova-se
Na órbita prevista, em que até os deuses
      Giram, sóis centros servos
      De um movimento imenso.

29 - 1 - 1921

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
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