Estendo os braços para ti... 
A noite cai nas nossas mãos... 
Nós éramos melhor que irmãos 
Na outra vida que vivi. 

Teus girassóis eram na alma... 
Os teus tanques nos gestos teus... 
Tu inclinavas-te p’ra Deus 
E a noite era uma grande palma... 

Perdi-te quando me encontrei... 
Não quis a vida que me deram... 
Nossos beijos de outrora eram 
Segundo uma divina lei... 

Aparecias entre véus... 
Passavas entre o trigo e a tarde... 
Inda no meu coração arde 
O poente que nos dera Deus.. 

Deixa que eu peça a Deus por ti 
Para que venhas algum dia 
Quando a vida estiver vazia 
E eu chore o muito que vivi.

Então talvez de entre palmeiras 
Tua presença abra em flor 
Caminharás no meu amor 
Como uma brisa por bandeiras.

Água nas cascatas desfeitas 
Do meu sorriso enternecido... 
Serás o íntimo sentido 
Das nossas horas mais perfeitas… 

Lua subindo no horizonte 
Da minha imagem de ti 
A tua vida estrelas e 
Tantas estrelas que em vão conte. 

Em teu torno, halo misterioso, 
Sete planetas com anéis... 
Seguindo como  fiéis 
O teu advento silencioso.
 
E a vida longe, como um belo 
Manto deixado em desvario...
Nós indo p’ra o Castelo Esguio 
E Deus saliente do Castelo. 


 espaço deixado em branco pelo autor
24 - 2 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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