1
Na primeira figura se detinha
O Catual, que vira estar pintada,
Que por divisa um ramo na mo tinha,
A barba branca, longa e penteada.
Quem era e por que causa lhe convinha
A divisa que tem na mo tomada?
Paulo responde, cuja voz discreta
O Mauritano sbio lhe interpreta:

2
— «Estas figuras todas que aparecem,
Bravos em vista e feros nos aspeitos,
Mais bravos e mais feros se conhecem,
Pela fama, nas obras e nos feitos.
Antigos so, mas inda resplandecem
Co nome, entre os engenhos mais perfeitos.
Este que vs, Luso, donde a Fama
O nosso Reino «Lusitnia» chama.

3
«Foi filho e companheiro do Tebano
Que to diversas partes conquistou;
Parece vindo ter ao ninho Hispano
Seguindo as armas, que contino usou.
Do Douro, Guadiana o campo ufano,
J dito Elsio, tanto o contentou,
Que ali quis dar aos j cansados ossos
Eterna sepultura, e nome aos nossos.

4
O ramo que lhe vs, pera divisa,
O verde tirso foi, de Baco usado,
O qual nossa idade amostra e avisa
Que foi seu companheiro e filho amado.
Vs outro, que do Tejo a terra pisa,
Despois de ter to longo mar arado,
Onde muros perptuos edifica,
E templo a Palas, que em memria fica?

5
«Ulisses , o que faz a santa casa
Deusa que lhe d lngua facunda,
Que, se l na sia Tria insigne abrasa,
C na Europa Lisboa ingente funda.»
— «Quem ser estoutro c, que o campo arrasa
De mortos, com presena furibunda?
Grandes batalhas tem desbaratadas,
Que as guias nas bandeiras tem pintadas.»

6
Assi o Gentio diz. Responde o Gama:
— «Este que vs, pastor j foi de gado;
Viriato sabemos que se chama,
Destro na lana mais que no cajado.
Injuriada tem de Roma a fama,
Vencedor invencbil, afamado.
No tem com ele, no, nem ter puderam,
O primor que com Pirro j tiveram.

7
«Com fora, no; com manha vergonhosa
A vida lhe tiraram, que os espanta;
Que o grande aperto, em gente inda que honrosa,
s vezes leis magnnimas quebranta.
Outro est aqui que, contra a ptria irosa,
Degradado, connosco se alevanta.
Escolheu bem com quem se alevantasse,
Pera que eternamente se ilustrasse.

8
«Vs, connosco tambm vence as bandeiras
Dessas aves de Jpiter validas;
Que j naquele tempo as mais guerreiras
Gentes de ns souberam ser vencidas.
Olha to sutis artes e maneiras
Pera adquirir os povos, to fingidas:
A fatdica cerva que o avisa.
Ele Sertrio, e ela a sua divisa.

9
«Olha estoutra bandeira, e v pintado
O gro progenitor dos Reis primeiros.
Ns Hngaro o fazemos, porm nado
Crm ser em Lotarngia os estrangeiros.
Despois de ter, cos Mouros, superado
Galegos e Leoneses, cavaleiros,
Casa Santa passa o santo Henrique,
Por que o tronco dos Reis se santifique.»

10
— «Quem , me dize, estoutro que me espanta
(Pergunta o Malabar maravilhado),
Que tantos esquadres, que gente tanta,
Com to pouca, tem roto e destroado?
Tantos muros asprrimos quebranta,
Tantas batalhas d, nunca cansado,
Tantas coroas tem, por tantas partes,
A seus ps derribadas, e estandartes?»

11
«Este o primeiro Afonso (disse o Gama)
Que todo Portugal aos Mouros toma;
Por quem no Estgio lago jura a Fama
De mais no celebrar nenhum de Roma.
Este aquele zeloso, a quem Deus ama,
Com cujo brao o Mouro imigo doma,
Pera quem de seu Reino abaxa os muros,
Nada deixando j pera os futuros.

12
«Se Csar, se Alexandre Rei, tiveram
To pequeno poder, to pouca gente,
Contra tantos imigos, quantos eram
Os que desbaratava este excelente,
No creias que seus nomes se estenderam
Com glrias imortais to largamente;
Mas deixa os feitos seus inexplicveis,
V que os de seus vassalos so notveis.

13
«Este que vs olhar, com gesto irado,
Pera o rompido aluno mal sofrido,
Dizendo-lhe que o exrcito espalhado
Recolha, e torne ao campo, defendido;
Torna o moo, do velho acompanhado,
Que vencedor o torna de vencido;
Egas Moniz se chama o forte velho,
Pera leais vassalos claro espelho.

14
«V-lo c vai cos filhos a entregar-se,
A corda ao colo, nu de seda e pano,
Porque no quis o moo sujeitar-se,
Como ele prometera, ao Castelhano.
Fez com siso e promessas levantar-se
O cerco, que j estava soberano.
Os filhos e mulher obriga pena;
Pera que o senhor salve, a si condena.

15
«No fez o Cnsul tanto, que cercado
Foi nas Forcas Caudinas, de ignorante,
Quando a passar por baxo foi forado
Do Samntico jugo triunfante.
Este, pelo seu povo injuriado,
A si se entrega s, firme e constante;
Estoutro a si e os filhos naturais
E a consorte sem culpa, que di mais.

16
«Vs este que, saindo da cilada,
D sobre o Rei que cerca a vila forte?
J o Rei tem preso e a vila descercada;
Ilustre feito, digno de Mavorte!
V-lo c vai pintado nesta armada,
No mar tambm aos Mouros dando a morte,
Tomando-lhe as gals, levando a glria
Da primeira martima vitria.

17
« Dom Fuas Roupinho, que na terra
E no mar resplandece juntamente,
Co fogo que acendeu junto da serra
De Abila, nas gals da Maura gente.
Olha como, em to justa e santa guerra,
De acabar pelejando est contente.
Das mos dos Mouros entra a felice alma,
Triunfando, nos Cus, com justa palma.

18
«No vs um ajuntamento, de estrangeiro
Trajo, sair da grande armada nova,
Que ajuda a combater o Rei primeiro
Lisboa, de si dando santa prova?
Olha Henrique, famoso cavaleiro,
A palma que lhe nasce junto cova.
Por eles mostra Deus milagre visto;
Germanos so os Mrtires de Cristo.

19
«Um Sacerdote v, brandindo a espada
Contra Arronches, que toma, por vingana
De Leiria, que de antes foi tomada
Por quem por Mafamede enresta a lana:
Teotnio Prior. Mas v cercada
Santarm, e vers a segurana
Da figura nos muros que, primeira
Subindo, ergueu das Quinas a bandeira.

20
«V-lo c, donde Sancho desbarata
Os Mouros de Vandlia em fera guerra;
Os imigos rompendo, o alferes mata
E Hisplico pendo derriba em terra.
Mem Moniz , que em si o valor retrata
Que o sepulcro do pai cos ossos cerra,
Digno destas bandeiras, pois sem falta
A contrria derriba, e a sua exalta.

21
«Olha aquele que dece pela lana,
Com as duas cabeas dos vigias,
Onde a cilada esconde, com que alcana
A cidade, por manhas e ousadias.
Ela por armas toma a semelhana
Do cavaleiro que as cabeas frias
Na mo levava (feito nunca feito!).
Giraldo Sem Pavor o forte peito.

22
«No vs um Castelhano, que, agravado
De Afonso nono, Rei, pelo dio antigo
Dos de Lara, cos Mouros deitado,
De Portugal fazendo-se inimigo?
Abrantes vila toma, acompanhado
Dos duros Infiis que traz consigo.
Mas v que um Portugus com pouca gente
O desbarata e o prende ousadamente.

23
«Martim Lopes se chama o cavaleiro
Que destes levar pode a palma e o louro.
Mas olha um Eclesistico guerreiro,
Que em lana de ao torna o bago de ouro.
V-lo, entre os duvidosos, to inteiro
Em no negar batalha ao bravo Mouro?
Olha o sinal no Cu, que lhe aparece,
Com que nos poucos seus o esforo crece.

24
«Vs, vo os Reis de Crdova e Sevilha
Rotos, cos outros dous, e no de espao.
Rotos? Mas antes mortos; maravilha
Feita de Deus, que no de humano brao.
Vs? J a vila de Alcare se humilha,
Sem lhe valer defesa ou muro de ao,
A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa,
Que a coroa de palma ali coroa.

25
«Olha um Mestre que dece de Castela,
Portugus de nao, como conquista
A terra dos Algarves, e j nela
No acha quem por armas lhe resista.
Com manha, esforo e com benigna estrela,
Vilas, castelos, toma, a escala vista.
Vs Tavila tomada aos moradores,
Em vingana dos sete caadores?

26
«Vs, com blica astcia ao Mouro ganha
Silves, que ele ganhou com fora ingente.
Dom Paio Correia, cuja manha
E grande esforo faz enveja gente.
Mas no passes os trs que em Frana e Espanha
Se fazem conhecer perpetuamente
Em desafios, justas e torneos,
Nelas deixando pblicos trofus.

27
«V-los co nome vm de aventureiros
A Castela, onde o preo ss levaram
Dos jogos de Belona verdadeiros,
Que com dano de alguns se exercitaram.
V mortos os soberbos cavaleiros
Que o principal dos trs desafiaram,
Que Gonalo Ribeiro se nomeia,
Que pode no temer a lei Leteia.

28
«Atenta num que a fama tanto estende
Que de nenhum passado se contenta,
Que a ptria, que de um fraco fio pende,
Sobre seus duros ombros a sustenta.
No no vs, tinto de ira, que reprende
A vil desconfiana, inerte e lenta,
Do povo, e faz que tome o doce freio
De Rei seu natural, e no de alheio?

29
«Olha: por seu conselho e ousadia,
De Deus guiada s e de santa estrela,
S, pode o que impossbil parecia:
Vencer o povo ingente de Castela.
Vs, por indstria, esforo e valentia,
Outro estrago e vitria, clara e bela,
Na gente, assi feroz como infinita,
Que entre o Tarteso e Guadiana habita?

30
«Mas no vs quase j desbaratado
O poder Lusitano, pela ausncia
Do Capito devoto, que, apartado,
Orando invoca a suma e trina Essncia?
V-lo com pressa j dos seus achado,
Que lhe dizem que falta resistncia
Contra poder tamanho, e que viesse
Por que consigo esforo aos fracos desse.

31
«Mas olha com que santa confiana,
Que inda no era tempo, respondia,
Como quem tinha em Deus a segurana
Da vitria que logo lhe daria.
Assi Pomplio, ouvindo que a possana
Dos imigos a terra lhe corria,
A quem lhe a dura nova estava dando,
«Pois eu (responde) estou sacrificando.»

32
«Se quem com tanto esforo em Deus se atreve
Ouvir quiseres como se nomeia,
Portugus Cipio chamar-se deve;
Mas mais de Dom Nuno lvares se arreia,
Ditosa ptria que tal filho teve!
Mas antes, pai; que, enquanto o Sol rodeia
Este globo de Ceres e Neptuno,
Sempre suspirar por tal aluno.

33
«Na mesma guerra v que presas ganha
Estoutro Capito de pouca gente;
Comendadores vence e o gado apanha
Que levavam roubado, ousadamente,
Outra vez v que a lana em sangue banha
Destes, s por livrar, co amor ardente,
O preso amigo, preso por leal:
Pero Rodrigues do Landroal.

34
«Olha este desleal e como paga
O perjrio que fez e vil engano;
Gil Fernandes de Elvas quem o estraga
E faz vir a passar o ltimo dano;
De Xerez rouba o campo e quase alaga
Co sangue de seus donos Castelhano.
Mas olha Rui Pereira, que co rosto
Faz escudo s gals, diante posto.

35
«Olha que dezessete Lusitanos,
Neste outeiro subidos, se defendem,
Fortes, de quatrocentos Castelhanos,
Que em derredor, pelos tomar, se estendem;
Porm logo sentiram, com seus danos,
Que no s se defendem, mas ofendem.
Digno feito de ser, no mundo, eterno,
Grande no tempo antigo e no moderno!

36
«Sabe-se antigamente que trezentos
J contra mil Romanos pelejaram,
No tempo que os viris atrevimentos
De Viriato tanto se ilustraram,
E deles alcanando vencimentos
Memorveis, de herana nos deixaram
Que os muitos, por ser poucos, no temamos;
O que despois mil vezes amostramos.

37
«Olha c dous Infantes, Pedro e Henrique,
Prognie generosa de Joane;
Aquele faz que fama ilustre fique
Dele em Germnia, com que a morte engane;
Este, que ela nos mares o pubrique
Por seu descobridor, e desengane
De Ceita a Maura tmida vaidade,
Primeiro entrando as portas da cidade.

38
«Vs o Conde Dom Pedro, que sustenta
Dous cercos contra toda a Barbaria?
Vs outro Conde est, que representa
Em terra Marte, em foras e ousadia.
De poder defender se no contenta
Alccere, da ingente companhia,
Mas do seu Rei defende a cara vida,
Pondo por muro a sua, ali perdida.

39
«Outros muitos verias, que os pintores
Aqui tambm por certo pintariam;
Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores:
Honra, prmio, favor, que as artes criam;
Culpa dos viciosos sucessores,
Que degeneram, certo, e se desviam
Do lustre e do valor dos seus passados,
Em gostos e vaidades atolados.

40
«Aqueles pais ilustres que j deram
Princpio gerao que deles pende,
Pela virtude muito anto fizeram,
E por deixar a casa que descende.
Cegos, que, dos trabalhos que tiveram,
Se alta fama e rumor deles se estende,
Escuros deixam sempre seus menores,
Com lhe deixar descansos corruptores.

41
«Outros tambm h grandes e abastados,
Sem nenhum tronco ilustre donde venham.
Culpa de Reis, que s vezes a privados
Do mais que a mil que esforo e saber tenham.
Estes os seus no querem ver pintados,
Crendo que cores vs lhe no convenham,
E, como a seu contrairo natural,
pintura que fala querem mal.

42
«No nego que h, contudo, descendentes
De generoso tronco e casa rica,
Que, com costumes altos e excelentes,
Sustentam a nobreza que lhe fica;
E, se a luz dos antigos seus parentes
Neles mais o valor no clarifica,
No falta, ao menos, nem se faz escura;
Mas destes acha poucos a pintura.»

43
Assi est declarando os grandes feitos
O Gama, que ali mostra a vria tinta
Que a douta mo to claros, to perfeitos,
Do singular artfice ali pinta.
Os olhos tinha prontos e direitos
O Catual na histria bem distinta;
Mil vezes perguntava, e mil ouvia
As gostosas batalhas que ali via.

44
Mas j a luz se mostrava duvidosa,
Porque a almpada grande se escondia
Debaxo do Horizonte, e, luminosa,
Levava aos Antpodas o dia,
Quando o Gentio e a gente generosa
Dos Naires da nau forte se partia,
A buscar o repouso que descansa
Os lassos animais, na noite mansa.

45
Entretanto, os arspices famosos
Na falsa opinio, que em sacrifcios
Antevem sempre os casos duvidosos
Por sinais diablicos e indcios,
Mandados do Rei prprio, estudiosos,
Exercitavam a arte e seus ofcios,
Sobre esta vinda desta gente estranha,
Que s suas terras vem da ignota Espanha.

46
Sinal lhe mostra o Demo, verdadeiro
De como a nova gente lhe seria
Jugo perptuo, eterno cativeiro,
Destruio de gente e de valia.
Vai-se espantado o atnito agoureiro
Dizer ao Rei (segundo o que entendia)
Os sinais temerosos que alcanara
Nas entranhas das vtimas que oulhara.

47
A isto mais se ajunta que um devoto
Sacerdote da Lei de Mafamede,
Dos dios concebidos no remoto
Contra a divina F, que tudo excede,
Em forma do Profeta falso e noto
Que do filho da escrava Agar procede,
Baco odioso em sonhos lhe aparece,
Que de seus dios inda se no dece.

48
E diz-lhe assi:— «Guardai-vos, gente minha,
Do mal que se aparelha pelo imigo
Que pelas guas hmidas caminha,
Antes que esteis mais perto do perigo.»
Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,
Espantado do sonho; mas consigo
Cuida que no mais que sonho usado.
Torna a dormir, quieto e sossegado.

49
Torna Baco, dizendo:— «No conheces
O gro legislador que a teus passados
Tem mostrado o preceito a que obedeces,
Sem o qual freis muitos baptizados?
Eu por ti, rudo, velo, e tu adormeces?
Pois sabers que aqueles que chegados
De novo so, sero mui grande dano
Da Lei que eu dei ao nscio povo humano.

50
Enquanto fraca a fora desta gente,
Ordena como em tudo se resista,
Porque, quando o Sol sai, facilmente
Se pode nele pr a aguda vista;
Porm, despois que sobe claro e ardente,
Se agudeza dos olhos o conquista,
To cega fica, quanto ficareis,
Se razes criar lhe no tolheis.»
51
Isto dito, ele e o sono se despede.
Tremendo fica o atnito Agareno;
Salta da cama, lume aos servos pede,
Lavrando nele o frvido veneno.
Tanto que a nova luz que ao Sol precede
Mostrara o rosto anglico e sereno,
Convoca os principais da torpe Seita,
Aos quais do que sonhou d conta estreita.

52
Diversos pareceres e contrrios
Ali se do, segundo o que entendiam;
Astutas traies, enganos vrios,
Perfdias, inventavam e teciam;
Mas, deixando conselhos temerrios,
Destruio da gente pretendiam,
Por manhas mais sutis e ardis milhores,
Com peitas adquirindo os regedores.

53
Com peitas, ouro e ddivas secretas
Conciliam da terra os principais;
E com razes notveis e discretas
Mostram ser perdio dos naturais,
Dizendo que so gentes inquietas,
Que, os mares discorrendo Ocidentais,
Vivem s de pirticas rapinas,
Sem Rei, sem Leis humanas ou divinas.

54
Oh! quanto deve o Rei que bem governa
De olhar que os conselheiros ou privados,
De conscincia e de virtude interna
E de sincero amor sejam dotados!
Porque, como est posto na superna
Cadeira, pode mal dos apartados
Negcios ter notcia mais inteira,
Do que lhe der a lngua conselheira.

55
Nem to-pouco direi que tome tanto
Em grosso a conscincia limpa e certa,
Que se enleve num pobre e humilde manto,
Onde ambio acaso ande encoberta.
E, quando um bom em tudo justo e santo,
E em negcios do mundo pouco acerta,
Que mal co eles poder ter conta
A quieta inocncia, em s Deus pronta.

56
Mas aqueles avaros Catuais,
Que o Gentlico povo governavam,
Induzidos das gentes infernais,
O Portugus despacho dilatavam.
Mas o Gama, que no pretende mais,
De tudo quanto os Mouros ordenavam,
Que levar a seu Rei um sinal certo
Do mundo que deixava descoberto,

57
Nisto trabalha s; que bem sabia
Que, despois que levasse esta certeza,
Armas e naus e gente mandaria
Manuel, que exercita a suma alteza,
Com que a seu jugo e Lei someteria
Das terras e do mar a redondeza;
Que ele no era mais que um diligente
Descobridor das terras do Oriente.

58
Falar ao Rei gentio determina,
Por que com seu despacho se tornasse,
Que j sentia em tudo da malina
Gente impedir-se quanto desejasse.
O Rei, que da notcia falsa e indina
No era de espantar se s’ espantasse,
Que to crdulo era em seus agouros,
E mais sendo afirmados pelos Mouros,

59
Este temor lhe esfria o baixo peito.
Por outra parte, a fora da cobia,
A quem por natureza est sujeito,
Um desejo imortal lhe acende e atia;
Que bem v que grandssimo proveito
Far, se, com verdade e com justia,
O contrato fizer, por longos anos,
Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.

60
Sobre isto, nos conselhos que tomava,
Achava mui contrrios pareceres;
Que naqueles com quem se aconselhava
Executa o dinheiro seus poderes.
O grande Capito chamar mandava,
A quem, chegado, disse:— «Se quiseres
Confessar-me a verdade limpa e nua,
Perdo alcanars da culpa tua.

61
«Eu sou bem informado que a embaxada
Que de teu Rei me deste, que fingida;
Porque nem tu tens Rei, nem ptria amada;
Mas vagabundo vs passando a vida.
Que quem da Hispria ltima alongada,
Rei ou senhor, de insnia desmedida,
H-de vir cometer, com naus e frotas,
To incertas viagens e remotas?

62
«E, se de grandes Reinos poderosos
O teu Rei tem a rgia majestade,
Que presentes me trazes valerosos,
Sinais de tua incgnita verdade?
Com peas e des altos, sumptuosos,
Se lia dos Reis altos a amizade;
Que sinal nem penhor no bastante
As palavras dum vago navegante.

63
«Se porventura vindes desterrados,
Como j foram homens de alta sorte,
Em meu Reino sereis agasalhados,
Que toda a terra ptria pera o forte;
Ou, se piratas sois, ao mar usados,
Dizei-mo sem temor de infmia ou morte,
Que, por se sustentar, em toda idade
Tudo faz a vital necessidade.»

64
Isto assi dito, o Gama, que j tinha
Suspeitas das insdias que ordenava
O Maomtico dio, donde vinha
Aquilo que to mal o Rei cuidava,
Cũa alta confiana, que convinha,
Com que seguro crdito alcanava,
Que Vnus Acidlia lhe influa,
Tais palavras do sbio peito abria:

65
— «Se os antigos delitos que a malcia
Humana cometeu na prisca idade
No causaram que o vaso da nequcia,
Aoute to cruel da Cristandade,
Viera pr perptua inimiccia
Na gerao de Ado, co a falsidade,
poderoso Rei, da torpe Seita,
No conceberas tu to m suspeita.

66
«Mas, porque nenhum grande bem se alcana
Sem grandes opresses, e em todo o feito
Segue o temor os passos da esperana,
Que em suor vive sempre de seu peito,
Me mostras tu to pouca confiana
Desta minha verdade, sem respeito
Das razes em contrrio que acharias,
Se no cresses a quem no crer devias.

67
«Porque, se eu de rapinas s vivesse,
Undvago ou da ptria desterrado,
Como crs que to longe me viesse
Buscar assento incgnito e apartado?
Por que esperanas, ou por que interesse
Viria exprimentando o mar irado,
Os Antrcticos frios, e os ardores
Que sofrem do Carneiro os moradores?

68
«Se com grandes presentes de alta estima
O crdito me pedes do que digo,
Eu no vim mais que a achar o estranho clima
Onde a Natura ps teu Reino antigo;
Mas, se a Fortuna tanto me sublima,
Que eu torne minha ptria e Reino amigo,
Ento vers o dom soberbo e rico
Com que minha tornada certifico.

69
«Se te parece inopinado feito
Que Rei da ltima Hispria a ti me mande,
O corao sublime, o rgio peito,
Nenhum caso possbil tem por grande.
Bem parece que o nobre e gro conceito
Do Lusitano esprito demande
Maior crdito e f de mais alteza,
Que creia dele tanta fortaleza.

70
«Sabe que h muitos anos que os antigos
Reis nossos firmemente propuseram
De vencer os trabalhos e perigos
Que sempre s grandes cousas se opuseram;
E, descobrindo os mares inimigos
Do quieto descanso, pretenderam
De saber que fim tinham e onde estavam
As derradeiras praias que lavavam.

71
«Conceito digno foi do ramo claro
Do venturoso Rei que arou primeiro
O mar, por ir deitar do ninho caro
O morador de Abila derradeiro.
Este, por sua indstria e engenho raro,
Num madeiro ajuntando outro madeiro,
Descobrir pde a parte que faz clara
De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.

72
«Crescendo cos sucessos bons primeiros
No peito as ousadias, descobriram,
Pouco e pouco, caminhos estrangeiros,
Que, uns sucedendo aos outros, prosseguiram.
De frica os moradores derradeiros,
Austrais, que nunca as Sete Flamas viram,
Foram vistos de ns, atrs deixando
Quantos esto os Trpicos queimando.

73
«Assi, com firme peito e com tamanho
Propsito vencemos a Fortuna,
At que ns no teu terreno estranho
Viemos pr a ltima coluna.
Rompendo a fora do lquido estanho,
Da tempestade horrfica e importuna,
A ti chegmos, de quem s queremos
Sinal que ao nosso Rei de ti levemos.

74
«Esta a verdade, Rei; que no faria
Por to incerto bem, to fraco prmio,
Qual, no sendo isto assi, esperar podia,
To longo, to fingido e vo promio;
Mas antes descansar me deixaria
No nunca descansado e fero grmio
Da madre Ttis, qual pirata inico,
Dos trabalhos alheios feito rico.

75
«Assi que, Rei, se minha gro verdade
Tens por qual , sincera e no dobrada,
Ajunta-me ao despacho brevidade,
No me impidas o gosto da tornada;
E, se inda te parece falsidade,
Cuida bem na razo que est provada,
Que com claro juzo pode ver-se,
Que fcil a verdade de entender-se.»

76
A tento estava o Rei na segurana
Com que provava o Gama o que dizia;
Concebe dele certa confiana,
Crdito firme, em quanto proferia;
Pondera das palavras a abastana,
Julga na autoridade gro valia,
Comea de julgar por enganados
Os Catuais corruptos, mal julgados.

77
Juntamente, a cobia do proveito
Que espera do contrato Lusitano
O faz obedecer e ter respeito
Co Capito, e no co Mauro engano.
Enfim ao Gama manda que direito
s naus se v, e, seguro dalgum dano,
Possa a terra mandar qualquer fazenda
Que pela especiaria troque e venda.

78
Que mande da fazenda, enfim, lhe manda
Que nos Reinos Gangticos falea,
S’ algũa traz idnea l da banda
Donde a terra se acaba e o mar comea.
J da real presena veneranda
Se parte o Capito, pera onde pea
Ao Catual que dele tinha cargo,
Embarcao, que a sua est de largo.

79
Embarcao que o leve s naus lhe pede,
Mas o mau Regedor, que novos laos
Lhe maquinava, nada lhe concede,
Interpondo tardanas e embaraos.
Co ele parte ao cais, por que o arrede
Longe quanto puder dos rgios paos,
Onde, sem que seu Rei tenha notcia,
Faa o que lhe ensinar sua malcia.

80
L bem longe lhe diz que lhe daria
Embarcao bastante em que partisse,
Ou que pera a luz crstina do dia
Futuro sua partida diferisse.
J com tantas tardanas entendia
O Gama que o Gentio consentisse
Na m teno dos Mouros, torpe e fera,
O que dele at li no entendera.

 

81
Era este Catual um dos que estavam
Corruptos pela Maometana gente,
O principal por quem se governavam
As cidades do Samorim potente.
Dele somente os Mouros esperavam
Efeito a seus enganos torpemente.
Ele, que no concerto vil conspira,
De suas esperanas no delira.

82
O Gama com instncia lhe requer
Que o mande pr nas naus, e no lhe val;
E que assi lho mandara, lhe refere,
O nobre sucessor de Perimal.
Por que razo lhe impede e lhe difere
A fazenda trazer de Portugal?
Pois aquilo que os Reis j tm mandado
No pode ser por outrem derrogado.

83
Pouco obedece o Catual corrupto
A tais palavras; antes, revolvendo
Na fantasia algum sutil e astuto
Engano, diablico e estupendo,
Ou como banhar possa o ferro bruto
No sangue avorrecido, estava vendo,
Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,
Por que nehũa ptria mais tornasse.

84
Que nenhum torne ptria s pretende
O conselho infernal dos Maometanos,
Por que no saiba nunca onde se estende
A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.
No parte o Gama, enfim, que lho defende
O Regedor dos Brbaros profanos;
Nem sem licena sua ir-se podia,
Que as almadias todas lhe tolhia.

85
Aos brados e razes do Capito
Responde o Idolatra que mandasse
Chegar terra as naus que longe esto,
Por que milhor dali fosse e tornasse.
— «Sinal de inimigo e de ladro
Que l to longe a frota se alargasse
(Lhe diz), porque do certo e fido amigo
no temer do seu nenhum perigo.»

86
Nestas palavras o discreto Gama
Enxerga bem que as naus deseja perto
O Catual, por que com ferro e flama
Lhas assalte, por dio descoberto.
Em vrios pensamentos se derrama;
Fantasiando est remdio certo
Que desse a quanto mal se lhe ordenava.
Tudo temia; tudo, enfim, cuidava.

87
Qual o reflexo lume do polido
Espelho de ao ou de cristal fermoso,
Que, do raio solar sendo ferido,
Vai ferir noutra parte, luminoso,
E, sendo da ouciosa mo movido,
Pela casa, do moo curioso,
Anda pelas paredes e telhado,
Trmulo, aqui e ali, e dessossegado:

88
Tal o vago juzo flutuava
Do Gama preso, quando lhe lembrara
Coelho, se por acaso o esperava
Na praia cos batis, como ordenara.
Logo secretamente lhe mandava
Que se tornasse frota, que deixara,
No fosse salteado dos enganos
Que esperava dos feros Maometanos.

89
Tal h-de ser quem quer, co dom de Marte,
Imitar os Ilustres e igual-los:
Voar co pensamento a toda parte,
Adivinhar perigos e evit-los,
Com militar engenho e sutil arte,
Entender os imigos, e engan-los,
Crer tudo, enfim; que nunca louvarei
O Capito que diga: «No cuidei.»

90
Insiste o Malabar em t-lo preso,
Se no manda chegar a terra a armada.
Ele, constante e de ira nobre aceso,
Os ameaos seus no teme nada;
Que antes quer sobre si tomar o peso
De quanto mal a vil malcia ousada
Lhe andar armando, que pr em ventura
A frota de seu Rei, que tem segura.

91
Aquela noite esteve ali detido,
E parte do outro dia, quando ordena
De se tornar ao Rei; mas impedido
Foi da guarda que tinha, no pequena.
Comete-lhe o Gentio outro partido,
Temendo de seu Rei castigo ou pena,
Se sabe esta malcia, a qual asinha
Saber, se mais tempo ali o detinha.

92
Diz-lhe que mande vir toda a fazenda
Vendbil que trazia, pera a terra,
Pera que, devagar, se troque e venda;
Que quem no quer comrcio, busca guerra.
Posto que os maus propsitos entenda
O Gama, que o danado peito encerra,
Consente, porque sabe por verdade
Que compra co a fazenda a liberdade.

93
Concertam-se que o Negro mande dar
Embarcaes idneas com que venha;
Que os seus batis no quer aventurar
Onde lhos tome o imigo, ou lhos detenha.
Partem as almadias a buscar
Mercadoria Hispana que convenha.
Escreve a seu irmo, que lhe mandasse
A fazenda com que se resgatasse.

94
Vem a fazenda, a terra, aonde logo
A agasalhou o infame Catual;
Co ela ficam lvaro e Diogo,
Que a pudessem vender pelo que val.
Se mais que obrigao, que mando e rogo,
No peito vil o prmio pode igual,
Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,
Pois o Gama soltou pela fazenda.

95
Por ela o solta, crendo que ali tinha
Penhor bastante donde recebesse
Interesse maior do que lhe vinha,
Se o Capito mais tempo detivesse.
Ele vendo que j lhe no convinha
Tornar a terra, por que no pudesse
Ser mais retido, sendo s naus chegado,
Nelas estar se deixa descansado.

96
Nas naus estar se deixa, vagaroso,
At ver o que o tempo lhe descobre;
Que no se fia j do cobioso
Regedor, corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juzo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode o vil interesse e sede imiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

97
A Polidoro mata o Rei Trecio,
S por ficar senhor do gro tesouro;
Entra, pelo fortssimo edifcio,
Com a filha de Acriso a chuva d’ ouro;
Pode tanto em Tarpeia avaro vcio,
Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quase afogada em pago morre.

98
Este rende munidas fortalezas;
Faz trdoros e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capites aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava s vezes as cincias,
Os juzos cegando e as conscincias;

99
Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis.
At os que s a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas no sem cor, contudo, de virtude!

 

Luís Vaz de Camões
OS LUSíADAS
Canto VIII
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