Entre o arvoredo, entre o arvoredo
Entre o arvoredo a luarar,
Passa, fantasma ouvido a medo,
Sombra composta de segredo,
Uma presença feita de ar.
 
Se fosse sol eu não ousara
Sequer pensar em poder ter
O que, por ver, eu não amara,
Porque a ilusão é que me é cara,
E o luar é a ilusão de ver.

Entre o arvoredo, incertamente,
Nas margens negras das clareiras,
Cercam-me, e são, se vê quem sente,
Qualquer coisa que, de repente,
Sombriamente tem maneiras.

6 - 9 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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