No de cores fingidas
a minha casa a vista representa,
nem as trevas sustenta
sobre colunas, de frica trazidas;
no de Atalo as riquezas possudas
logrando, herdeiro escasso,
mimoso da fortuna a vida passo.

Com Febo em companhia,
enganando co as Musas a pobreza,
emprego noite e dia
no que o mundo pouco estima e preza;
nem quero ter na vida mais riqueza:
tenha outrem para a vida
as veias de Pactolo, as mos de Mida.

Que mais ditosa sorte
que, discorrendo os anos docemente,
viver antes da morte
na vida mui quieto e contente?
Que estado mais seguro e eminente
que a fama ter segura
do Tempo, da Fortuna e da Ventura?

Do Egipto pereceram
os pirmides; e o Mausoleo,
co rico Templo em leo
de marfim feito os tempos desfizeram;
as esttuas de Escopas no puderam
sustentar-se contra eles,
nem as tbuas gentis do insigne Apeles.

Mas vs, Musas, aos vossos
das injrias dos tempos segurais;
e quaisquer feitos vossos
s leis da eternidade consagrais.
Com a lira de Orfeu ressuscitais
a virtude esquecida,
qual Eurdice morta a doce vida.

Estas as ervas eram
da mgica Medeia preciosas
que o Velho converteram
a fresca idade. Ah, obras milagrosas
estas eram as de Glauso poderosas
que, tanto que as comia,
feito imortal, o humano ser perdia.

Que no foi s roubada
aquela por quem Tria se perdeu;
nem foram ss na espada
Dimedes, Aiax e Idomeneu;
nem primeiro seus muros defendeu
Hector aventureiro,
nem em vencer Aquiles foi primeiro.

Muitos outros passaram
que perderam imortal merecimento,
porque os no libertaram
as Musas do perptuo esquecimento;
que elas deram enfim seguro assento
nos campos fortunados
a todos os heris celebrados.

Mas como a nau se alegra
quando, com novo lume os cus abrindo,
desterra a nuvem negra,
o mar se assenta, as ondas vo caindo;
tal eu, pois novo brio vou sentindo,
voar pudera sem penas
ao monte do Parnaso e Atenas.

Se mais que em brando lenho
em diamante esculpir qualquer figura,
ter em to duro engenho
maior louvor e glria se assegura;
que se este bem alcano da Ventura
de algum saber interno
quanto escrever ser louvor eterno.

Luís Vaz de Camões
[NÃO DE CORES FINGIDAS]
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