Ah, viver em cenário e ficção!
Ser só de panos de fundo o Real!
E sentir passar em Falso cada sensação
Com um acompanhamento musical!

Longe da plebe que tem horas e braços
E desejo de cousas que é possível possuir,
No reino do palco absoluto, sem laços
Com ter casa na vida, e razão para existir!

Nem realidade para além dos bastidores
Nem realidade real em quem vê,
Mas só real o cenário e os actores
Reais como actores, não como gente que cada um é.

Porque a vida passa, não se compreende e é plebe...
A razão de ser das cousas não explica nada...
Paraíso de ver como quem sonha! Ó alma, recebe
O baptismo do Eterno Cenário da flauta encantada!

7 - 3 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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