Sim, se deus fora um, e fora justo
E, sendo justo, todo-poderoso,
Com justa raiva e doloroso susto
Erguereis vosso brado,
Gritareis vosso pasmo ao céu piedoso
No que vos fez a dor já duvidoso,
Na injusta morte injusto revelado.

Mas, não havendo mais que na mentira
Esse deus só, omnipotente e bom,
Sendo nós, plebe anónima, sob a ira
Ou o capricho de forças mais que fortes
Que jogam jogos ou que fazem obras
Sinal de bem e mal, gozos e mortes,
Não há que ter mais que resignação,
Sem nada na mão
De que tudo e nada é como nós.


[c. 28-8-1923]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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