Dorme, criança, dorme
      Dorme que eu velarei;
Sozinho na noite enorme
      Dum conto me lembrarei
Que depois — dorme, criança, dorme —
      Cantando te contarei.

Era um céu negro e imenso
      E em baixo um mar sem fim
Um horror frio e disperso
      E uma voz descia dentro em mim
Sobre o mar, sobre o mar imenso
      Chorando dizia assim:

«Cai lentamente o pranto,
      Resvala para o chão,
E eu choro, mas fico no entanto
      Na mesma solidão
Com(o) o silêncio amargo do pranto —
      No fundo do coração.
 
Sonhei que me amaria
      Um espírito do luar
Que morrendo eu encontraria
      Ao pé de mim a sonhar
E agora choro noite e dia
      Sobre as ondas deste mar.

Chamo qual se saudade
      Homem do sempre-além
Mas apenas na soledade
      Minha voz vai e vem.

Andei, passei chorando
      Chorando há muito vou
Cesse o ardor vago e brando
      De quem muito sonhou
Mas só a si triste e chorando
      A minha alma se encontrou.

Me sinto em mim um soluço
      Pesadelo d’amargor
O abismo eterno em que me debruço
      É a eternidade sem amor...
E assim, com um soluço
      Esvai-se de vez a dor.

Quando fores grande — dorme! —
      Este conto contarei...
Por ora na noite enorme
      Enquanto te embalarei
Ignora tudo, criança, dorme,
      Dorme que eu velarei...


27-1-1909

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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