Há em todas as coisas uma mais-que-coisa 
fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, 
algo que já lá não está ou se perdeu 
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. 

Em certas tardes altas, absolutas, 
quando o mundo por fim nos recebe 
como se também nós fôssemos mundo, 
a nossa própria ausência é uma coisa. 

Então acorda a casa e os livros imaginam-nos 
do tamanho da sua solidão. 
Também nós tivemos um nome 
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos. 


In TODAS AS PALAVRAS. POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
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