Quando se está cansado e apraz ser outro
Só porque isso é impossível, há vagar
Para pensar que há um género que é neutro
No latim virgem do sonhar.

Sim, há cansaços sem saber de quê
Que tornam toda a vida e a sua sina
Uma coisa indecisa que não é
Masculina ou feminina.

Há estados de sem alma que se alastram
Pelos domínios quedos da razão
Com cheias de rios que desbastam
Com a sua fecundação.

Depois regressa ao leito o rio antigo
E a alma volve à quietação que teve.
E o que nos foi amigo e inimigo
Nem homem nem mulher esteve.

Foi um andrógino da noite muda
Que transmudou em nós o que pensou…
E a alma se ergueu do leito em que foi surda
E já não sabe o que sonhou.

15 - 9 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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