Sois fermosa e tudo tendes,
seno que tendes os olhos verdes.

VOLTAS

Ningum vos pode tirar
serdes bem assombrada;
mas heis-me de perdoar,
que as olhos no valem nada.
Fostes mal aconselhada
em querer que fossem verdes:
trabalhai de os esconderdes.

A vossa testa jardim,
onde Amor se desenfada:
branca e bem talhada
que parece de marfim.
Assi , e, quanto a mim,
isso nace de a terdes
to perto dos olhos verdes.

Os cabelos dasatados
o mesmo Sol escurecem;
seno que, por serem ondados,
algum tanto desmerecem:
mas, f, que se parecem
a furto dos olhos verdes,
no vos pese de os terdes.

As pestanas tm mostrado
ser raios que abrasam vidas;
se no foram to compridas
tudo o mais era pintado:
elas me tinham levado
j sem o vs saberdes,
se no foram os olhos verdes.

O mimo desse caro
nem pr-lhe os olhos consente:
e ser liso e transparente
rouba todo o corao.
Inda assim achareis gente
que lhe no pese de o terdes;
mas no seja cos olhos verdes.

Esse riso composto
de quantas graas naceram;
seno que alguns me disseram
vos faz covinhas no rosto.
Na vontade tenho posto
dar-vos a alma, se quiserdes,
a troco dos olhos verdes.

Nunca se viu, nem se escreve
boca nem graa igual,
se no fora de coral
e os dentes de cor de neve.
Dou-me a Deus, que me leve!
Sofrerei quanto tiverdes;
no me tenhais os olhos verdes.

Essa garganta merece
outras palavras, no minhas,
seno que feita em rosquinhas
de alfenim, o que parece.
Eu sei quem se ofrece
a tomar tudo o que tendes,
e tambm os olhos verdes.

Essas mos so ferropoias,
s com v-las, enfeitia;
seno que so alvas e cheias,
e tm a feio rolia,
com que apelais por justia,
para com elas prenderdes
os que tm vossos olhos verdes.

A vossa galantaria
matar a quem falardes;
tendes uns desdns e tardes
que eu logo vos roubaria.
Dou-me a Santa Maria!
Sou cujo de quanto tendes,
tambm desses olhos verdes.

 

Luís Vaz de Camões
[SOIS FERMOSA E TUDO TENDES]
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