Nas grandes horas em que a insónia avulta
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,

Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me foram nada, como frase estulta.
 
Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
epete seu monotono torpor

Na sombra, no delírio da clareza,
E não há Deus, nem ser, nem Natureza,
E a própria mágoa melhor fora dor.

31 - 7 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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