Chorais em vão no aspérrimo desterro
Em que ficais; e, amaldiçoando os céus,
Inútil voz ergueis, que o vosso erro
Não é a vossa dor, é o vosso Deus.

Não houvessem à vossa juventude
Falado num Deus justo e omnipotente;
Houvesse a infância vossa recebido
Testemunho sombrio, certo e rude
Dos veros deuses, caprichosa gente,
Que sem cura de mal ou bem, iguais
A nós na incerteza e na inconstância,
O justo e o injusto com igual sentido
Derramam pela terra, pouco mais
Que nós salvo na força e na distância.

Ah, quem vos disse que ao injusto e ao justo
Há quem destine um fado diferente?
Que mentirosa língua vos falou
Que devemos ‘sperar do fado augusto
O bem por bem e o mal por mal? Que gente
Vos mentiu de um Deus só?

Decerto não houvéreis esperado
Prémio ou justiça dos supremos reis
Nem contra o céu erguereis o vão brado
De quem sofre a □

 

3 - 10 - 1923

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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