Há quanto tempo isso foi!
Nem sei se foi nesta vida…
Lembrá-lo dói
Não conseguir lembrá-lo é uma ferida…

Sim, eras tu,
Ou alguém que hoje és,
O teu pé nu
Pousava sobre um leão que era a teus pés.

Isto, está claro, nunca poderia
Ter acontecido,
Mas, se pudesse, a gente viveria
Menos aborrecido.

Ah, teu longínquo olhar!
Teus beiços do passado!
Já os não sei amar
Por nunca os ter amado.

E tudo isto, que promete
Abismos de emoção
Vem só de eu estar olhando p’ra um tapete
Que está, como tudo, no chão.

 

10 - 8 - 1935

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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