Para além do arvoredo
Vejo o campo se estender
Num ondular sem segredo —
Ondular tão leve que
Tudo ali se pode ver.

Tão clara e perto parece
— Salvo que sem forma é cor —
Como a que perto aparece,
A flor que está longe e se
Vê que é flor mas não que flor.

E eu fico precisamente
Com esse contentamento
Que provém de estar contente —
Nao de ser teliz ou de
Gostar do campo ou do vento.

Resumo: não tendo nada
Que fazer senão não ter
Nada que fazer, da estrada
Vou vendo tudo isto que
Vou vendo até o não ver.

5 - 4 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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