1

Em toda a noite o sono não veio. Agora
Raia do fundo
Do horizonte, encoberta e fria, a manhã.
Que faço eu no mundo?
Nada que a noite acalme ou levante a aurora,
Cousa séria ou vã.

Com olhos tontos da febre vã da vigília
Vejo com horror
O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim
Do mundo e da dor —
Um dia igual aos outros, da eterna família
De serem assim.
 
Nem o símbolo ao menos vale, a significação
Da manhã que vem
Saindo lenta da própria essência da noite que era,
Para quem,
Por tantas vezes ter sempre ‘sperado em vão,
Já nada ‘spera.

                                                               14-1-1920


II


Manhã dos outros! Ó sol que dás confiança
Só a quem já confia!
É só à dormente, e não à morta, ‘sperança
Que acorda o teu dia.

A quem sonha de dia e sonha de noite, sabendo
Todo sonho vão,
Mas sonha sempre, só para sentir-se vivendo
E a ter coração,

A esses raias sem o dia que trazes, ou somente
Como alguém que vem
Pela rua, invisível ao nosso olhar consciente,
Por não ser-nos ninguém.


                                                           15-1-1920

 

III


Com um ‘splendor de cores e de ruído
Contra a minha atenção
Estruge a aurora, e em cada um meu sentido
Me põe confusão.

‘Splende, estrangeira radiosa do espaço,
Flor do outro jardim!
Bola multicolor atirada ao regaço
Do que não há em mim!

‘Splende! Extravaza em outros e tumulto
E fervor da subida!
Esgar ao meu coração, anónimo insulto
De Deus e da Vida!


                                                          15-1-1920


In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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