Cheias de lírios
Tuas mãos estende
Para os meus martírios...

Estende e fica assim
Nem sonho de gesto
Há desde mim

Até tuas mãos,
Para receber
Os teus lírios vãos...

Olhando, só olhando
Até a vida ir
Ficarei, amando

Com o mero ver
Só a ideia, só —
Dos lírios receber...

Fica sem mudança
Assim — P’ra que gestos,
Se mesmo olhar já me cansa?

Como duas figuras
De um baixo-relevo,
Por só-arte puras,

Assim ficaremos
Porque a nossa vida
Dorme sobre os remos...

Mãos sempre estendidas
Eu sempre só olhando
Duas hirtas vidas

Té que nos achemos
Vendo-nos de fora
Mero quadro... Sonhemos...

Sempre à margem de hoje...
Tão inutilmente
A vida nos foge!

10 - 1 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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