Sob a nudez do céu cheio de lua,
Onde ser 'strela é empalidecer,
Vou demoradamente pela rua,
Pensando firmemente em nada ser.
Mas é viver que penso, não morrer.

Penso naquele estado, ou intermédio
Ou impossível, que nos surge como
A melhor coisa que é contrária ao tédio,
Onde nem há saudade nem assomo
De desejo, um viver de elfo ou de gnomo.

Mas, supondo que tenha algum sentido
O estar pensando assim, o certo é que eu
Vou demoradamente decidido
A não ser nada, sob este amplo céu
De que o luar é, a um tempo, luz e véu.

Bem sei que num passado já tão longe
Que parece de um outro, ou lido, ou nada,
Tive melhor ideia que ser monge
E muito menos desta forma errada.
O luar enche a rua sossegada.

1 - 11 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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